Saúde Feminina Autores convidados

Existe uma pressão dissimulada da nossa sociedade para que as mulheres de hoje sejam perfeitas em todas as dimensões da sua vida (im)perfeita. Numa vida social, que exige uma mãe extremamente dedicada e incansável, uma profissional actualizada e competitiva, e uma esposa carinhosa e sempre disponível, onde fica o espaço para ouvir o corpo? Não permitimos esse espaço aparecer, calamos com frequência a voz do nosso corpo, damos mais um pouco porque é preciso responder a todas as demandas, e essa voz baixinha é reprimida, essa voz que teima em dizer que o nosso corpo feminino precisa de algo, precisa de tempo para equilibrar, precisa de tempo porque também somos cíclicas. O que é ser mulher neste tempo em que a fisiologia masculina ainda é o ponto de referência? Passamos a vida a esconder a menstruação, ou a associar-lhe pensamentos negativos, como se fosse errado menstruar, como se estivéssemos danificadas de alguma forma. Mas somos perfeitas, num corpo perfeito que tem as suas características específicas, somos perfeitas num corpo magnífico que consegue gerar vida.

De todas as dimensões da saúde feminina, gostaria de chamar a atenção para a nossa saúde íntima, para a nossa região pélvica, para a nossa vulva, para a nossa vagina. Numa sociedade em que ainda é “mal visto” menstruar, falar de saúde íntima e utilizar a palavra vagina, tudo isto ainda é tabu e está envolto em muitos mitos. Pode ser uma grande surpresa para muitas mulheres que vão ler este texto, saber que não estão sozinhas nas situações que afectam a sua região genital, não são as únicas, não são estranhas, são apenas mulheres que têm uma alteração da função pélvica que pode e deve ser falada e tratada. Estas condições não têm espaço no dia-a-dia para serem partilhadas, pois somos mulheres que temos que estar sempre perfeitas, não podemos confessar que podemos ter dores nas relações sexuais, que saem umas gotas quando treinamos no ginásio, na aula de zumba, ou quando um espirro nos apanha de surpresa, ou quando temos uma sensação diferente na vagina depois de ter tido um bebé, e que o tampão escorrega, ou que sai ar por onde e quando não devia sair.

Chegou o tempo de falar, de partilhar, de confessar o que está escondido por trás daquela imagem de mulher perfeita, a verdade daquela mulher real. São situações reais de mulheres reais.

 

O que precisam as nossas mulheres saber?

O pavimento pélvico ou períneo é uma região muito especial que precisa de ser conhecida por todas as mulheres, tenham filhos ou não, na adolescência ou na menopausa, mulheres que tiveram um parto vaginal ou cesariana, pelas que praticam desporto ou são sedentárias. Deve ser conhecida por todas as mulheres em todas as fases da sua vida. O pavimento pélvico tem um papel essencial na qualidade de vida pois controla necessidades vitais do nosso bem-estar. A maioria das vezes só nos tornamos conscientes da sua importância quando deixa de funcionar na perfeição. Poucas mulheres o conhecem, sabem quais as suas funções e a importância de cuidar desta região do seu corpo no dia-a-dia.

Então o que é o pavimento pélvico?

É um conjunto de músculos e fáscias que formam o “chão” da nossa pélvis. Formam uma ponte de tecido muscular e fascial entre o púbis e o cóccix, circundam a uretra, a vagina e o ânus.

Deste modo, controlam funções muito importantes. Para isso os músculos perineais têm que ser capazes de contrair e relaxar, no momento exacto, para conter ou esvaziar a bexiga e o recto. Desempenham um papel importante de sustentação das vísceras pélvicas (bexiga, útero e recto), para as manter no seu local anatómico durante toda a vida. São fundamentais na satisfação sexual, precisamos de músculos que sejam ágeis e flexíveis, com bom tónus para a tensão ideal, de forma a intensificar o prazer da mulher.

Em disfunção, estes músculos podem encontrar-se relaxados e fracos, ou muito activos e rígidos. Idealmente estes músculos têm que ter força muscular e ser capazes de contrair na intensidade adequada a cada situação e, por outro lado, ter a capacidade de relaxar totalmente.

São responsáveis por aumentar ou diminuir as pressões dentro do abdómen, nas mais diversas actividades da vida diária como tossir, rir, espirrar, carregar pesos, correr, gritar, cantar, tocar instrumentos de sopro, ter relações sexuais, saltar, esvaziar a bexiga ou recto. Estas e outras actividades do dia-a-dia têm repercussões neste grupo muscular.

Provavelmente já ouviram falar dos exercícios de Kegel. São uma forma básica de tomar consciência e treinar estes músculos para melhorar a sua força, resistência e agilidade. Devemos contrair totalmente e relaxar totalmente também.

Porque é tão difícil realizar uma contracção eficaz destes músculos? Porque são muito profundos e não se conseguem ver, a contracção correcta depende inteiramente da nossa sensação (se a contracção é fraca a mulher tem muita dificuldade em perceber se está a contrair ou não, e pode fazer expulsão em vez da contracção). Para identificar se está a fazer uma contracção, tem que ter a sensação de que todos os orifícios pélvicos se fecham (ânus, vagina e uretra), e sentir um movimento para dentro e para a frente em direcção ao púbis. Pode colocar um dedo dentro da vagina, para confirmar e sentir o movimento. É um exercício de autoconhecimento que lhe vai servir para toda a vida e evitar as complicações de um pavimento pélvico disfuncional.

O que sentem as mulheres quando este grupo não funciona bem?

Podemos ter diferentes sensações dependendo de qual é a disfunção e de como estão os nossos músculos. Um pavimento pélvico fraco e laxo, frequentemente vai dar origem a sintomas de incontinência urinária; prolapso dos orgãos pélvicos (em que posso sentir algo a sair pela minha vagina, uma sensação de peso genital), dor mais profunda nas relações sexuais ou diminuição das sensações no acto sexual, e alterações do orgasmo; incontinência a gases ou fezes. Por outro lado, o aumento exagerado de tensão muscular desta região leva a uma rigidez e está muito associado a situações de dor pélvica, dor no esvaziamento da bexiga, incontinência urinária, dor nas relações sexuais, por vezes com muita dificuldade ou impossibilidade de penetração, obstipação ou dor durante a evacuação.

Porque aparecem estas disfunções?

Como já referimos anteriormente, o pavimento pélvico faz parte de um sistema que gere a pressão dentro do abdómen, como se fosse uma casa em que o chão é o pavimento pélvico, o telhado o diafragma respiratório e as paredes os músculos profundos lombares e o transverso do abdmómen. Para manter uma função correcta temos que manter a casa equilibrada. Assim, todas as situações como alterações posturais, obesidade, tabagismo, asma, desportos muito exigentes ou com muito impacto, trabalhos que exijam manusear cargas, muito tempo em pé, tocar instrumentos de sopro, uma obstipação crónica com muito esforço para evacuar podem causar disfunção devido a um aumento de pressão mal gerido pelo sistema.

A gravidez e parto são também um dos factores de risco mais frequentes, quer pelas alterações posturais durante o processo de gravidez e aumento de pressão intrabdominal, quer pelo parto em si. O parto tem consequências pélvicas, quer seja por via vaginal ou cesariana. E adicionalmente muitas vezes existe um pós-parto pouco respeitado, em que se começa a realizar tarefas ou exercício físicos muito exigentes, quando o corpo ainda não está preparado para suportar.

O avanço da idade leva a alterações da qualidade do colagénio, levando a mais mobilidade dos ligamentos que suportam as vísceras. Se não houver um sistema dinâmico saudável (músculos que contraem na intensidade e altura certa) vamos ter as primeiras manifestações de incontinência, prolapso ou alteração das sensações sexuais.

Algumas situações de disfunção pélvica podem acontecer devido a quadros inflamatórios ou infeciosos recorrentes, por trauma pélvico, ou cirurgia abdominal ou pélvica.

Passamos a vida a esconder o que se passa “lá em baixo”, como se não fosse permitido existir problemas, como se fosse muito errado ou muito estranho…mas não é. Estas situações surgem apenas por consequência do que acontece na nossa vida e como usamos e respeitamos os timings do nosso corpo. Parecemos as únicas, mas não somos, existem muitas mulheres com os mesmos desafios, os mesmos desconfortos.

Se não estamos bem, confortáveis no nosso próprio corpo, não vamos conseguir viver com a liberdade que merecemos, com a energia que precisamos para sermos criativas, activas e fazer face a tudo o que esperam de nós, mães, mulheres, supermulheres que trabalham. Uma região que pode, de alguma forma, ser a nossa vulnerabilidade, mas que é também a nossa força.

É hora de pensarmos em nós, é hora de ter o nosso tempo. Tem que haver tempo para cuidar, para respeitar os nossos ciclos, as nossas necessidades.

Conhecer como funciona o nosso corpo e respeitar profundamente os nossos ciclos é o maior acto de AMOR PRÓPRIO que uma mulher pode ter!!

 

Carina Portugal, Fisiohandme
https://www.fisiohandme.com/fisioterapia