[Relato de parto #42] Cátia Mercier Parto Com Água / Relatos

Foi no dia 26 de junho de 2017 que, após um dia de trabalho, estranhando a ausência de menstruação e com alguns enjoos matinais sem explicação, resolvi fazer o teste de gravidez.  E deu o desejado positivo. Era o meu terceiro positivo no espaço de um ano, só que das outras duas vezes (não menos importantes para mim) ainda não tinha chegado a minha altura de ser mãe (acredito que tudo acontece por uma razão e na altura que tem que acontecer).

O positivo foi aquele misto de emoções e medos por tudo o que tinha já acontecido. Confesso que os 3 meses, após saber que estava grávida, foram os meses mais longos pelos quais passei em toda a minha vida…. mas foram passados com muita serenidade e com o pensamento em aceitar aquilo que estaria guardado para mim.

Ao longo de toda a gravidez fui amadurecendo a ideia do meu maior desejo – ter um parto humanizado e com o mínimo de intervenções possíveis. Tentei rodear-me das pessoas que me davam segurança, tranquilidade e que ao mesmo tempo conseguiam escutar tudo aquilo que uma grávida com emoções à flor da pele tem para dizer ou desabafar – o meu marido (o meu grande pilar neste nosso caminho), a minha querida doula a Marisa Rodrigues Costa e a minha médica Dra. Radmila Jovanovic.
A gravidez passou muito rápido e como que de repente já estava no terceiro trimestre.

No dia 19 de fevereiro de 2018, já com 40 semanas e 4 dias combinei com a minha doula uma massagem pela manhã. Dias antes tinha comentado com ela que o facto de já ter completado as 40 semanas e não haver sinais de parto estava-me a deixar ligeiramente ansiosa e não queria que aquele sentimento se apoderasse de mim. Ela sugeriu uma massagem para descontrair. Nessa manhã ela colocou uma música tranquila, fez-me uma massagem que me soube pela vida e fiquei muito mais leve. Ficámos à conversa um pouco até que ela olhou para a minha barriga e disse:

“Cátia! Estás a ter uma contração!” Eram contrações sem dor e para mim todas aquelas sensações eram novas e nem estava a perceber/interpretar a contração que estava a sentir naquele momento.

Naquela manhã observámos várias contrações do mesmo género, sem qualquer dor apenas sensação de barriga rija. Comecei a ver que o intervalo entre contrações já tinha algum ritmo. Entretanto, almoçámos juntas e as contrações continuaram até que a Marisa diz “está na hora de ligares à Radmila e dizeres-lhe o que estás a sentir”. Assim o fiz. Liguei à minha médica e ela aconselhou-me a passar pela clínica para me observar. Saímos de casa em direção à clínica (entretanto já tinha avisado o meu marido que já estava a ter alguns sinais). Chegámos a clínica e após o CTG e ser observada pela Dra Radmila ela diz-me que ainda estava tudo muito no início, mas estava para breve. Aconselhou-me a ir passear, descontrair e  ficarmos em contacto… foi aí que me “caiu a ficha” … estava MESMO a chegar o meu momento, que tanto desejei em idealizei toda a gravidez. Fui passear e lanchar com a minha doula e depois voltámos para casa. Continuava com contrações sem dor, mas mais intensas e com menos intervalo, pelo que, fui tomar um banho de imersão. Entretanto o meu marido chegou disse à Marisa que podia ir para casa pois estava tudo aparentemente tranquilo e ela diz “nem pensar, agora fico contigo até ao fim”. Jantámos os três e vimos um filme, a meio do filme fui me deitar. As contrações mantinham-se sem dor, mas tinha que descansar e encher-me de energia para o que aí vinha.

O sono pouco durou… Acordei à 1 h da manhã com uma contração acompanhada de uma cólica. Resolvi não acordar ninguém peguei no telemóvel e, deitada, comecei a registar o intervalo entre contrações. Eram 2h30 e achei que estava na hora de acordar o meu marido e a minha doula. Começámos a preparar a sala, o sítio que escolhemos para a Carolina nascer. As velas, a música, o meu marido tratou de ver se a maquina fotográfica e a GoPro estavam preparadas, pois resolvemos não contratar fotógrafo para o momento e a minha doula Marisa e o meu marido iam fotografando como fosse possível.  Fiquei com o registo de tudo o que foi magnífico!

Olhei de novo para a piscina (que tínhamos insuflado uma semana antes) com o sentimento “está quase meu deus!!!”. Entre contrações dancei em plena madrugada, usei a bola de pilates para alguns movimentos, fui beber um café olhando para todo o cenário que tínhamos escolhido para o grande dia!
Eram 5 horas da manhã e já tinha que parar e respirar fundo em cada contração… o meu marido e a doula alternavam-se nas massagens na lombar. Foi nesse momento que liguei à minha medica e expliquei-lhe tudo aquilo que estava a acontecer. Ela sugeriu que eu fosse à clinica caso me sentisse “bem” para tal para ela me observar. Eram 5h30 da manhã quando saímos os três. Foi a viagem mais longa da minha vida…. cada buraco na estrada era muito doloroso para mim…as contrações já estavam muito fortes… fui observada e já estava com 3 dedos de dilatação e com contrações regulares o trabalho de parto estava a progredir. Voltámos para casa onde pude tomar o pequeno almoço.

Nesta fase, a respiração e as massagens eram fundamentais para me deixar passar por cada contração. Entretanto chega a Radmila e outra médica que a ia auxiliar em todo o processo, a Dra. Vera, que me observou e sugeriu que fosse tomar um banho de banheira. E foi aí…mergulhada na minha banheira que tudo ganhou mais intensidade, em cada contração vocalizava a dor, visualizava a minha bebé a descer, a dor neste momento já possuía o meu corpo de uma forma inexplicável, mas quanto mais intensa era a dor maior era a minha concentração nela mesma. Perdi a noção do tempo que estive na banheira. Aliás, desde esta altura até ao nascimento da Carolina perdi completamente a noção de qualquer coisa à minha volta porque estava concentrada na minha missão, que tanto desejei e sonhei, estava a trabalhar em conjunto com a minha bebé e fazê-la nascer, as minhas forças estavam todas ali.

 

 

Quando saí da banheira estava com 5 dedos de dilatação e contrações fortíssimas. Estava na hora de encher a piscina. Muitas massagens, botija de água quente na lombar, e ele o melhor companheiro que eu poderia pedir, esteve ao meu lado em todos os momentos de uma forma linda e presente. A atmosfera dentro daquela sala era de muito amor. A minha querida doula sempre a apoiar, a acreditar em mim e nas minhas forças…ia oferecendo água e alguns snacks como fruta, frutos secos.
Entrei na piscina…. ai, como alivia a água quente!!! Diziam que aliviava mas só quando passei pela sensação percebi esta palavra “alívio”. É um sentimento único de liberdade de movimentos, eu estava mais leve dentro água, conseguia descontrair o corpo todo….como é bom sentir toda aquela dor de amor dentro de água, ao vocalizar a dor abria espaço no canal de parto para a minha filha descer e visualizava mentalmente todo esse processo. Percebi naquele momento que não devia lutar contra a dor e sim vivê-la com toda a intensidade com que vinha e que merecia ser vivida. Cada contração era um passo à frente até conhecer a minha filha. O meu marido apoiava os meus braços fora da piscina e eu boiava literalmente dentro de água. Este apoio dele para mim foi determinante.


Passaram duas horas que estive dentro de água e tive que sair, fiquei 30 minutos fora de água e foi aí de cócoras junto ao meu sofá que me rebentaram as águas, neste momento já era a cabeça da minha bebé que era empurrada em cada contração para sair. Aquela meia hora fora de água foi terrível! Eu não estava a suportar contrações fora de água, são muito mais intensas.
Entrei de novo na piscina, o meu marido sempre a apoiar-me os braços como lhe pedia e ele sentia que eu precisava daquele apoio, dizia me coisas lindas ao ouvido “tu consegues”, “estamos juntos”, “está quase, amor”, “ és linda e és muito forte”….ele acreditava em mim e nunca duvidou das minhas capacidades. É um sentimento estrondoso termos ao nosso lado quem nos apoia desta forma e ter a plena confiança que eu como sua mulher seria capaz de dar à luz a sua filha.
Quando voltei a entrar na água parece que, de repente …. as contrações pararam a Radmila disse-me “aproveita e descansa elas voltam (as contrações)”, fiquei mergulhada na água a boiar, deixei-me ficar de tal forma que adormeci…sim isso mesmo…pouco antes de a minha filha nascer o meu corpo desligou, parou tudo, e adormeci.

Nunca pensei que tal coisa pudesse acontecer …. mas é lindo perceber como o nosso corpo é perfeito e apenas estava a ganhar forças para o período expulsivo.

 

A fase expulsiva do trabalho de parto foi o momento em que o meu poder feminino se elevou ao máximo (como nem eu sabia). As contrações eram muito, muito, muito intensas. A Dra Radmila ia dando indicações e eu estava completamente em sintonia com o que ela dizia (acredito que o facto de confiar nela e nas minhas capacidades fez toda a diferença para a minha entrega total no processo). Eu escolhi passar por aquele momento sem anestesias, queria viver por inteiro. Sentia que era capaz e sabia que era o melhor para a minha filha e essa sim era a razão principal… o seu bem-estar, a todo o momento.

E foi assim, naquele momento com o meu marido abraçado a mim nas minhas costas já dentro de água comigo, que pude viver o momento mais inexplicável da minha vida. Percebi o significado do tal círculo de fogo assim que a minha bebé coroou …. ai como dói e queima!!!! Seguiram-se mais umas vigorosas contrações e ela saiu…. respirei fundo para receber a minha bebé no braços…tirei-a da água e olhei-a (aquela primeira imagem que jamais esquecerei) abriu logo os olhos e chorou. Foi diretamente para o meu peito e logo nos apercebemos que o cordão era curto ficou entre o peito e a barriga até sair a placenta.

Eu estava completamente inundada de amor, foi a melhor sensação que alguma vez senti, não conseguia acreditar.

 

Passaram uns 15 minutos e saiu a placenta e o pai cortou o cordão. Saí da água quando achei que devia sair com a minha menina e deitei-me no sofá com ela no meu peito onde mamou enquanto a Radmila me observava a pequena laceração que tive (levei um ponto por precaução mas podia não ter levado de tão pequena que era).
E dali fomos diretos para o nosso ninho, a nossa cama…que bem que soube! Nada paga aquela primeira noite na nossa cama…não dois … mas três …. a nossa família.
O meu peito fervilhava, eu transbordava ocitocina, naquele dia eu renasci, muito mais forte, confiante e plena. Voltei a acreditar em mim e nas capacidades do meu corpo (depois de 2 abortos eu precisava desta prova a mim mesma … esta superação que só eu consigo perceber). É inacreditável o tamanho do sentimento que temos depois de um parto destes.

Eu serei eternamente grata a mim mesma por me ter permito entregar ao processo tão natural que é o nascimento de um filho, ao meu marido, por ter acreditado em mim em todos os momentos, à minha doula por me ter mostrado este caminho, sem ela jamais teria uma experiencia de vida como esta, à minha médica extremamente competente, respeitosa e sorridente e à minha filha, por me escolher como mãe, e por estarmos completamente coordenadas nestas longas horas. Eternamente grata por conseguir partilhar o milagre da vida.