[Relato de parto #43] Parto Com Água / Relatos

Sou a Marta e fui canal para trazer ao mundo a Pádua, no dia 10 de Abril de 2018.

Há muito que percorria um caminho de desconstrução do falso eu. O Universo tem as mais dispares formas de nos apoiar nesse processo, para muitos surge uma separação, o desemprego, um acidente, uma doença, uma morte… para mim veio em forma de vida, uma gravidez. Sim. Uma gravidez. Este meu portal não foi cor-de-rosa, nem suave, foi um mergulho nas minhas águas mais profundas, remexendo a poeira de todas as gavetas que eu, egoicamente, acreditava que já havia limpo.

Sabia que o caminho a percorrer para a escolha da médica, local, etc.. não ia ser “o normal”, mas no início estava longe de imaginar que ia fazer um parto em casa na água!
Muito resumidamente, passei por quatro obstetras e encontrei “Casa” na última, a Drª Radmila, Mulher profunda que me “despiu” e acolheu.

Porém a Vida tinha outros planos! E quando eu achei que já podia respirar porque tinha encontrado o caminho, eis que o Universo me traz de novo o nome da Olívia. Em 2016, uma irmã de caminho tinha-me falado da Luz da Olívia, mas eu estava a viver fora e não nos cruzámos. Depois em Fevereiro de 2017, por altura dos eclipses, li uma entrevista sua às Mães d´Água e retive…

 

Então, em Novembro de 2017, vinda de uma série de espetáculos onde não soube colocar os meus limites físicos (típico do arquétipo da guerreira – “Eu faço tudo sozinha!”), a Vida brindou-me com a sua visão simbólica, e eu lesionei-me! Uma distensão abdominal foi a minha porta de contacto com a Olívia!
É LINDO PAH…!
PLIM! A luz da sua ancestralidade a fazer vibrar todos os meus poros. Fizemos uma mera consulta pela lesão e despedimo-nos.

Em Janeiro veio o curso de preparação para o parto, com a Íris, Raquel, Lila e Ágata. E foi a gota que transbordou o copo! Eu que vinha a deixar aflorar os saberes ancestrais, a confiança e gratidão para com a Grande Mãe Divina, não tive mais como ignorar o chamado de que aquelas Mulheres seriam as minhas guardiãs. O André que me acompanhava nesta viagem “incoerente” e repleta de medo, também sentiu ali o nosso porto seguro e, vendo-me em Casa, incentivou.

O medo foi hóspede por mais uns tempos! Uffa! Até que não houve mais por onde fugir!
Recordo o bálsamo e incentivo que foi a reação da Dra Radmila quando lhe contei, às 33 semanas, que afinal não seria com ela… É uma sábia mulher que, mesmo assim, me continuou a acolher. Foi fundamental esta sua abertura para o meu voo… Admiro-a com muito amor.

E é a partir daqui que vos posso falar do meu parto!

A Pádua quis chegar às 39+5 e começou a dar os seus pequenos sinais 3 dias antes. Fui notando o rolhão mucoso, algumas contrações de preparação e avisando a equipa:
Parteira – Raquel
Doulas – Olívia e Iris Lincan
Como de esperar, ao invés do pragmatismo, formalidade e frieza do que, em geral, se pratica na medicina tradicional, recebia a cada mensagem uma dose de entusiasmo e alegria! Era uma egrégora de Mulheres Medicina (e o Pai!!) felizes por apoiarem mais um parto, respeitando TUDO o que de natural é inerente a esse processo, as vontades, escolhas e fragilidades da Mãe, empoderando sempre. Tipo “What”?!!! Sim ISTO EXISTE!!!

Dia 9 de Abril senti que ela estava mesmo a chegar. 

Fomos passear ao Solar dos Zagalos, caminhámos muito (distância vira um fator muito relativo para uma grávida barriguda!), escolhi uma árvore, abracei, meditei, pedi proteção para mim e para a minha bebé.
Voltámos a casa, preparei a última refeição daquela Marta.
O André foi tocar e pude ter uns momentos sozinha de reflexão. Estava com algum medo, mas algo muito profundo em mim, sabia que estava tudo certo.
O André chegou, jantámos e as contrações já se faziam notar mais, avisámos a equipa e fomos todos dormir, porque sabíamos que a Pádua estava quase a chegar e precisávamos de descansar!
Às 04h da manhã acordei com contrações mais fortes, o André avisou-as e, no tempo certo, foram chegando. Chovia mesmo muito.
O André foi o primeiro guardião, anotando o espaçamento das contrações e avisando as parteiras. Sempre muito calmo, sem dúvidas nem stress.
Tínhamos escolhido o quarto da Pádua para o parto e assim que acordei fui terminar de o preparar, luzes, velas, cristais, música, colchão…
A primeira a chegar foi a Íris, a minha doula do coração. Seguida da Raquel e a Esther – A Esther que esteve para ser minha doula, que acabou por não ser e que por portas e travessas acabou por vir ao parto e foi um pilar fundamental… a Vida é tão sábia! – e da Olívia já não me apercebi, só me lembro de a ver lá!

TUDO o que era necessário estava ali, sou mesmo grata.

As contrações começaram a ficar mais intensas e a minha alma fez uma escolha, a Esther era a pessoa certa. Entre guitarras e tambores a postos, o que o meu corpo quis foi deitar-se em posição fetal e vocalizar “AAAAAA” ou “UUUUU”. Não sei quanto tempo ali permaneci. Estive muito consciente sem lá estar…!
Sei que me levantava algumas vezes para ir à casa de banho. Também pedi para ir para à piscina, mas a vontade de fazer força era incontrolável e ainda não era o momento, saí de seguida.

Malta dói! Gritei muito, muito mesmo. Mas procurem o anestésico certo e é muito suportável. O meu foi a Esther e vou ser-lhe sempre profundamente grata.

Lembro-me da Raquel encaminhar os meus gritos descompensados para o sítio certo e de lhe ouvir várias vezes “Boa Marta!”.
Lembro-me da Olívia me dar homeopatias.
Lembro-me do André sempre junto de mim.
Lembro-me do seu sussurro “Estás a ir muito bem, tenho muito orgulho em ti” (ele sabia o que não dizer!! Tipo “Tem calma!”).
Lembro-me de estar deitada no chão com a Esther, olhar para trás e ver o André com um boneco de pano, um anjo que a minha Mãe tinha costurado, na mão… aquele olhar valeu por mil palavras.
Lembro-me que a playlist rodou 2 vezes.
Lembro-me de todas cantarmos “I realese control, and surrender to the flow of love, that will heal me”.
Lembro-me da Olívia me ter dito, muito docemente, que eu estava na fase de transição e poderia tentar dormir.
Lembro-me de me acordarem e eu escolher entrar na piscina.
Lembro-me de sentir algum desespero.
A expulsão foi a parte mais difícil para mim. Muito difícil mesmo.
Lembro de mais homeopatias e uma colher de mel. Água também.
Lembro de seriedade e profissionalismo, mas com muito acolhimento e tranquilidade.
Lembro da Íris sempre a sussurrar-me palavras de incentivo. Sempre a trazer-me a imagem da nossa Grande Mãe.
Lembro-me de fazer muita força e pensar que não seria capaz.
Lembro-me de estar “muito tempo” nesse processo.
Lembro-me de me render.
Estive quase sempre de quatro e aí voltei-me de barriga para cima e comecei a entregar o meu peso à água e a dizer “Eu sou capaz”.
A partir daí veio uma força que não era só minha (arrepios) e sim eu fui capaz. Levou o seu tempo, não é rápido, dói muito, “rasga-nos”.
Foi o momento mais intenso da minha vida. Foi o fim e o começo.
Primeiro a cabecinha… e pouco depois recebi a minha mestra. Fui a primeira pessoa a pegar-lhe, foi muito bonito… E de repente senti-me invadida por uma alegria, um êxtase! Tinha conseguido fintar os hospitais, as intervenções, as agulhas, as episiotomias, as pressas alheias, o ambiente esterilizado… e a minha escolha trouxe amor, saúde, acolhimento, alegria, pertença…para ambas, para a minha família.

7h de trabalho de parto ativo.

A minha Lobinha nasceu bem saudável e comigo também correu tudo lindamente, não houve hemorragias, não rasguei… e ainda tive direito a cacau quente e torradas com ovos mexidos e abacate! Oh Céus!

A irmã placenta bombeou todo o sangue que pertencia à Pádua durante um par de horas e o Pai foi convidado a fazer o corte.
4 belos decalques ficaram de recordação pelas mãos de cada uma destas Mulheres Medicina.

 

Só hoje, 4 meses depois, consigo escrever estas linhas, o pós-parto tem sido muito intenso, cru, transformador. Embora falhe a memória dos detalhes, fica a certeza do AMOR.

Ainda a Renascer.
Profunda GRATIDÃO!

 

Marta Chasqueira