A morte visitou o meu útero Autores convidados

O que aconteceu comigo foi algo natural, que faz parte dos aprendizados que eu, como mulher, tenho e terei. Decidi partilhar para trazer para a nossa consciência que perdas não são tabu. E que assuntos tabu não devem ser abafados. Fazem parte de todos nós. Com esta publicação pretendo quebrar o tabu, anulá-lo para que ele não me anule como humana. Que a minha história seja inspiradora para todas as mulheres e casais que passam ou passaram por este momento. Trazer a consciência de que a vida é cíclica e que, dentro desta, temos várias vidas e várias mortes. Estamos sempre a experienciar a morte de diferentes maneira. E a morte é tão bela como a vida. Em cada morte há um renascimento! É essa a força da perda. Empoderemo-nos mulheres com a nossa força cuidadora pois este mundo precisa desta energia pacificadora e amorosa. É preciso maturidade, é preciso coragem, é preciso treino, é preciso amor. É preciso muito amor próprio.

Já há algum tempo que tenho uma preciosa ferramenta de auto-conhecimento e consequentemente, conhecimento dos meus ciclos. Dos padrões que levo e vou deixando, do meu lado emocional e do meu lado físico. Essa ferramenta é a Mandala da Lua! Graças a ela tornei-me consciente do que acontece comigo a cada ciclo. Desde que a comecei a fazer conheço-me muito melhor e religuei-me a mim mesma, enquanto mulher. Além disso, comecei a respeitar o meu sangue e a deixá-lo sair de mim sem nojo, sem vergonha! Empoderei-me enquanto mulher pelo meu sangue! O sangue sagrado. Representa a vida, a fertilidade. Mas também a morte e o renascimento. Nós mulheres, temos o privilégio de assistirmos todos os meses a este ciclo tão natural que é a VIDA – MORTE – RENASCIMENTO.

O instinto de ser mãe visitou-me há já algum tempo. Inicialmente entrei em rejeição mas, depois deixei que essa energia nutridora, da Grande Mãe, fosse crescendo em mim.

Devido à minha consciência dos meus ciclos, estranhei não ter recebido a Lua (menstruação) no mês passado. Fui contando os dias em atraso e comecei a estar atenta aos sinais do meu corpo. No entanto, havia a possibilidade de haver mesmo um atraso, porque era um mês de mudanças. E com a mudança veio uma certa ansiedade. Algumas vezes o meu corpo pedia-me para parar, para o ouvir.

Certo dia, acordei com uma má disposição que não era normal, sentia-me cansada e enjoada. A partir desse dia o meu corpo enviava-me vários sinais: muito sono (principalmente depois das refeições), enjoos matinais, vontade infinita de comer…e sentia o meu corpo em transformação. Em silêncio, fiquei uma semana a analisar os meus estados. Uma semana depois falei com o Ricardo, fiz o teste de gravidez e deu positivo. No dia seguinte repeti o teste. Positivo novamente. Aí sim, certezas de que uma vida estava a ser gerada em mim. Fui amparada nos braços do Ricardo, tal era a minha felicidade que, sem motivo, se conteve. A partir desse dia, o desconforto matinal aumentava, acompanhado por dores de cabeça muito fortes. Cada dia ficava pior. O meu corpo pedia-me, suplicava-me para parar, para me nutrir. Nesse dia, cancelei todos os eventos e decidi parar o mês todo.

Dois dias depois tive a perda.
Era domingo, acordei repentinamente, aquela sensação de vida e de felicidade ao acordar, já não estavam ali. Fui à casa de banho e tinha sangue. A morte já tinha visitado o meu útero. Senti-o!! Gritei pelo Ricardo em lágrimas, medo, frustração, culpa, amor e ódio. Não consegui falar com ele, a não ser mostrar-lhe o sangue e dizer-lhe para irmos para o hospital. Se houve dor física a mesma foi abafada pela dor emocional. Cheguei ao hospital com muito frio, muito fraca, tonturas… A enfermeira que cuidou de mim disse-me: “Se estiver a abortar já não podemos fazer nada.” Esta palavras ainda hoje ecoam dentro do meu coração e da minha mente. Nesse momento percebi que estava sozinha! Que mesmo no alento do Ricardo a sensação de vazio era mais forte.

O frio não passava e eu continuava fraca. Três horas depois veio a confirmação que o meu útero foi visitado pela morte. A morte da Grande Mãe estava agora no meu corpo. Inexplicável o que senti! Confesso que no momento de maior dor questionei-me porquê. Pergunta retórica. Este dia foi preenchido pelo vazio! Não havia mais nada senão aquele momento. Não havia ontem nem amanhã. Havia vazio. A dor de ter a consciência de que nos próximos dias ia ter um parto. Que lentamente e através daquele sangue estava a sair a morte. No dia seguinte foi o pior dia. Do vazio passou a dor. Doía tudo. Doíam-me até os pensamentos! Contudo, nesse dia passei-o em plena consciência, apenas como observadora. Analisava o que pensava e o que sentia e tive várias vezes a impressão de que estava fora do meu corpo.

Passaram 7 dias. Passei-os em resguardo! Coloquei em prática os ensinamentos das curandeiras da montanha que reza assim:
Manter corpo quente/Silêncio/Recolhimento/Alimentação saudável/Faixa em volta do útero e do ventre para fechar o útero e voltarmos ao nosso centro/Manter pés e costas sempre quentes/Purificar, harmonizar, limpar e regenarar/Ritual de passagem e oferenda que encerra o ciclo. Fui minha curandeira durante 7 dias!  Os rituais de encerramento de ciclos são muito importantes para as mulheres, para que não fiquem no passado. Para que todo o seu campo energético seja informado da crise, da transição e da purificação da crise.

Há algo muito importante que gostava de referir, no 2º e 3º dias senti-me no meio de uma linha muito ténue entre a guerreira que há em mim e a vítima. Por pouco não me agarrei à segunda, já que o momento de carência emocional pode ser confundido com vitimização. É esperado dos homens que se sacrifiquem e das mulheres que desempenhem o papel de vítimas. É importante não nos culparmos, apenas deixar ir, aceitar e libertar o ser que esteve dentro de nós. Assim, abençoo este ser e liberto-o, deixando-o ir no fluxo da água, que leva sem voltar. Quanto a mim, o meu tempo e espaço com ele,  acabou!
❤

Mulheres, ouçam apenas o vosso coração. Somos todas diferentes, todas vivenciamos de forma diferente, só não deixem de ser verdadeiras com vocês.  Mas o vosso coração saberá distinguir as palavras sábias das palavras vazias. A grande lição é que nós somos apenas uma parte da situação, um canal, não somos a sua natureza.

A todas as mulheres o meu abraço amoroso.

Margarida Costa