Desapego Grito na Lua Negra

Ansiei tanto o primeiro dia de escola da Vi que me senti anormal. Estando grávida e tendo passado nos últimos meses 24h diárias com a pipoca fiquei assim, cansada e a ansiar o momento. Até porque sentia que já lhe estava a fazer falta desenvolver a parte social. Já são três anos e meio.

Segunda-feira lá fomos os três. Ela ficou muito bem ao ver outros meninos. Acabámos por deixá-la à vontade, a explorar. Foi estranho vir sem ela, aquela sensação de ninho vazio, de cria a dormir há horas seguidas,…. Fui buscá-la depois do almoço e ela não queria vir embora, tal como eu esperava.

No segundo dia já foi mais reticente mas, mais uma vez, ao ver crianças ficou no mundo dela. Custou-me mais este dia, talvez por ter ido sozinha. Fiquei a manhã toda de “coração nas mãos”, ansiosa pela hora de a ir buscar. Fui um pouco mais tarde e encontrei-a a dormir. A menina que raramente faz sesta estava a dormir. Voltei a sair para lhe dar tempo de acordar naturalmente e bem-disposta. Mais uma vez, não queria vir embora.

 

No terceiro dia, passei quase a manhã com ela. Foi martirizante para mim. Não por ficar lá, até porque as crianças mais velhas eram muito protetoras com ela, mas porque a ideia de que ela não ficava bem me deixava a sentir a pior mãe do mundo. Éramos três mães lá, com as suas crias. Estive sempre com ela, no recreio já se libertou e brincou mais à vontade. Quando regressámos à sala ela foi brincar com outros meninos para a mesa da plasticina. Saí. Devagar. Sempre a espreitar a ver se teria de voltar.

A incerteza do que se passa, do que ela sente, dos medos que poderá sentir são uma sensação bem dolorosa. Mas, na verdade, cada vez que a ía buscar ela não queria ir embora. Foi assim toda a semana. Ficou melhor nos restantes dias mas nunca tinha vontade de sair. Isto fez-me pensar que ela gosta. Vem para casa e fala espontaneamente do que fez, fala dos meninos. Descreve brinquedos, uma música que aprendeu. Ela gosta. Ainda está em fase de adaptação e não acorda sempre com a mesma disposição, naturalmente. Também nos acontece a nós, adultos.

 

As crianças são todas diferentes e todas elas têm o seu período de adaptação. Há crianças que ficam logo sem problema nenhum, outras que não se adaptam. Há um menino na sala da Violeta que, sempre que o vejo, está a chorar. Cabe-nos a nós pais, perceber e respeitar esse tempo de adaptação. Isso seria o ideal. Para que se sintam gradualmente confortáveis. Fazer visitas antes de fase de integração. Para que conheçam o espaço e não seja tudo novidade no momento. Um brinquedo, uma manta, algo que seja familiar, que crie uma ponte entre a criança e as memórias de casa e dos pais. Um porto seguro. No caso da Violeta é a manta que usa para a sesta (que começou a fazer) uma vez que, mesmo que leve brinquedos dela, só lhe interessam os dos outros meninos…

 

Foi uma semana muito dura emocionalmente. Acredito que mais para mim do que para ela porque estava sempre feliz e sem vontade de ir para casa. Isso deve querer dizer algo. Tenho a sorte de estar em casa, nesta fase, e conseguir acompanhar de perto, ir buscar mais cedo ou ficar lá com ela. Isso é muito importante. Mas também confio nela e nos sinais me que envia. Ela precisa de sentir e saber que estou perto mas precisa, igualmente, de ter espaço. Sinto muito isso nela. Precisa de espaço para aprender a gerir o que sente e aprender a se relacionar com o outro. Adorei vê-la a abraçar o menino que chorava. Estes pequenos momentos mostram a doçura que tem naquele gigante coração.

 

Por isso mães e pais (que também sofrem), um abraço muito forte nesta fase de adaptação. Confiem nas vossas crianças e nos vossos instintos. Eles saberão vos guiar. E conversem, desabafem os vossos receios. Questionem os funcionários, ajudem-nos a conhecer os vossos filhos. É uma adaptação para todos. E conversem muito com os filhotes sobre o que sentem, sobre o que acontece.


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.