[Relato de parto #44] Mafalda Pereira da Silva Parto Com Água / Relatos

1 mês de serenidade – porque a forma como parimos, com quem parimos e onde parimos importa tanto…

Um mês, namoro pegado… Um mês sereno, tal como foi o nosso parto. Sereno, não por ter sido sem dor, romântico como, por vezes, se lê e vê,  não por ter sido linear ou simples e rápido. Sereno porque sabia que era capaz. Tive o privilégio de ter podido escolher as pessoas que comigo estavam, para mim, os melhores profissionais. Não só tecnicamente, mas humanamente também (se é que nesta área se pode ser tecnicamente o melhor, sem o ser no campo humano).
Sereno porque planifiquei tudo o que podia planificar. Casa a menos de 5 minutos do hospital. Piscina pronta. Quarto e casa de banho imaculados. INEM avisado. Dois enfermeiros parteiros. Uma pediatra. Pai completamente à vontade e com todas as dúvidas tiradas. Ambos, eu e o pai, com total confiança nos profissionais e em mim, nas minhas hormonas, no bebé e na gravidez, que correu sem qualquer percalço. Análises impecáveis e tensão sem risco nenhum.
Sereno porque as outras três crias estavam já destinadas assim que percebesse que era O dia! (uma estava a acampar, a outra de férias fora e a mais nova foi para casa da avó)! Sim, porque eu sabia que ia parir durante aquela semana.
Sereno porque sabia exactamente o que não podia planificar e controlar – as hormonas – e, por isso, confiei e deixei-as, desde o início, fazerem o seu trabalho.
Sereno porque aproveitámos a gravidez para criar laços e uma relação de confiança entre nós e o pequeno Sancho, o nosso pequeno bebé – por isso compreendeu que naquela semana era a melhor altura para nascer e assim o fez.
Sereno porque, como casal, exponenciámos o trabalho natural das hormonas e dos fluídos. Sabendo que a ocitocina é a hormona responsável pelo nascimento, pelas contrações que ajudam o bebé a descer o canal de parto. Essa é a função da dor, guiar-nos pela navegação, pelo caminho que o bebé está a fazer. Então porque não inundar o corpo de ocitocina natural?! E como se inunda? Com muito amor, com muitos orgasmos, com muito toque, com muitos beijos… Assim que comecei com as contrações… muito amor, fazer muito o amor… depois… sabemos que o sémen ajuda ao amolecimento do colo do útero… novamente, muito amor, e muita troca de fluídos…
Sereno porque estivemos sempre em contacto com os nossos parteiros.
Sereno porque os parteiros chegaram no momento “H”, no momento em que as contrações estavam já ritmadas e a sua presença era imperativa para manter a calma e a confiança de que tudo ia correr bem.
Sereno porque quando as contrações estavam já bastante fortes, o amor passou a ser o cuidado e o meu bem estar em forma de mimos, massagens, palavras encorajadoras, resposta às minhas necessidades.
Sereno porque entrei na água no momento certo, em que o mergulho na água tépida e pura da piscina o alívio me inundou retemperando as minhas forças, a minha confiança e a minha paz.
Sereno porque pude beber e comer o que me apetecia, de entre os vários alimentos e bebidas que previamente tínhamos conversado. Os alperces, as uvas e o chá gelado fizeram maravilhas.
Sereno porque o cuidado passou do marido para a parteira enquanto o marido estava com o parteiro a preparar a piscina, a água, o ninho que iria receber o nosso bebé da forma mais serena que se pode querer ao transitar do útero para o nosso mundo.
Sereno porque me senti mimada, cuidada, amada por todos. De tal maneira que entre uma e outra contração, apesar de muito fortes, estava numa ambiguidade de querer que terminasse e não querer que terminasse.
Sereno porque sabia que ali todos acreditavam em mim, porque senti que os meus mantras, as minhas vocalizações, as minhas necessidades eram, não só correspondidas, mas também acompanhadas.
Sereno porque pequenos truques interiorizados durante o curso de pré parto, e nos partos anteriores, fluíam agora guiando-me nesta nova navegação.
Sereno porque tinha quatro pessoas a cuidar de mim, que também iam tendo o seu descanso, quando precisavam, e alternavam entre si permitindo também a eles o descanso para estarem a 100% quando eu precisasse.
Tão sereno que o maior cansaço causado pelo efeito de iô-iô da circular mochila (cordão à volta do pescoço e tórax) fazendo prolongar as dores sentidas nas contrações foi ultrapassado minuto a minuto, mimo a mimo.
Sereno porque nasceu quando quis, ambientou-se dentro de água, da água veio para o meu peito e no meu peito ficou ainda a respirar pelo cordão umbilical. Apenas a sentir-me, a ouvir o meu coração, agora cá fora, a cheirar-me, a reconhecer-me, a ouvir-me…
E, serenamente, com dois soluços começou a respirar, a tocar-me.
Serenamente deixou o cordão umbilical de pulsar, cordão que o pai cortou.
E assim ficámos, serenamente, aguardando que a placenta também saísse, a iniciar o nosso namoro pegado sem que ninguém interferisse.
Serenamente procurou a maminha e começou a mamar. Sem stress, manipulação ou preocupação. Sem vários olhares estranhos, só ele e eu, e outros escolhidos por nós, cheios de amor e carinho por mim e por ele.
E, sim, aos 8 dedos de dilatação pensei no que me tinha metido novamente, que já sabia como era parir sem qualquer analgésico. Como era possível, 3 anos antes, ter parido a F. e, ainda, na sala de partos ter dito que estava pronta para outra?!
Sim, a dor era tanta que pensei que o próximo seria adoptado.
Sim… lembro-me de tudo isto, mas não me lembro da dor. E, amanhã, se parir o 5º volto a fazer o mesmo, da mesma forma, igualzinho, na água e em casa porque… Sim… acredito que este bebé é a mais serena de todas as crias porque todo o seu tempo foi respeitado. Porque todo o meu tempo, as minhas necessidades também o foram. Porque em momento algum estive perante o mais fraco momento de stress ou preocupação.
Sim, acredito que toda a serenidade desta cria advém de, findo o parto, podermos ter estado a namorar com a nossa calma. Respirarmo-nos, mimarmo-nos sem a menor intervenção, sem a menor manipulação. Onde a maioria do “exame ao recém-nascido” foi feito ao meu colo e as outras mãos que lhe tocaram ou foram as do pai ou outras mãos, igualmente, cheias de amor e adoração. E isto faz toda a diferença.
Tal como fez toda a diferença ter estado no meu espaço, ter partilhado o jantar com as outras mãos cheias de amor. Ter dormido na minha cama, na nossa cama. Ter podido ter comigo, nessa mesma noite, a F. . Ter podido levantar-me quando me senti bem sem ter de pedir “autorização”. Ter podido, a meio da noite, assaltar o frigorifico. Ter, na manhã seguinte, mãos cheias de amor a verificar o meu útero e o meu peito. Ter podido tomar banho na minha banheira. Ter tomado o meu pequeno almoço, exactamente aquele que me apeteceu, na minha sala, com a minha família. Não ter tido a logística de fazer e desfazer malas.
E… com um parto, e um pós parto, assim, como é que esta cria não podia ser a mais serena de todas? Porque a água faz a diferença, porque o nosso ambiente faz a diferença e, especialmente, porque o estarmos inundados de amor e rodeados de cuidado e carinho faz maravilhas deixando-nos maravilhados…

 

Somos uns privilegiados e seria tão bom que todas as mulheres pudessem parir assim, cheias de amor e carinho, em casa, no hospital, na água, em terra ou no ar… que pudessem parir cuidadas, amadas e acarinhadas porque, sim, a maneira como parimos faz toda a diferença não só na cria, não só na relação que com ela estabelecemos, mas, especialmente, na relação que descobrimos connosco próprias e com a nossa força!

E, para mais informações, deixo aqui o Parecer da Mesa do Colégio de Especialidade em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica.