[Relato de parto] #45 Ella Van-Dúnem Parto Com Água / Relatos

Lisboa – 19/01/2018

Parto acompanhado pelos meus pais e 2 parteiras (Uta Schneeweiss e Karin Schlotte, que conheci via o website da Mães D’água), o meu esposo estava em Luanda.

Tive uma gestação tranquila, rodeada de amor, apoio, e cheia de saúde. Do primeiro ao oitavo mês fiz o acompanhamento pré-natal em Angola, na clínica Girassol, e fui muito bem tratada. Fui para Portugal porque expressei ao meu esposo o desejo de parir em casa e ele apoiou. Vimos que os serviços de emergência em Portugal funcionariam melhor do que os de Angola, caso precisássemos. Alugamos um apartamento localizado ao lado de uma maternidade, e lá fomos no oitavo mês, descansar e preparar para o parto.

No dia 17 de janeiro de 2018, às 23h, comecei a sentir contracções e, ao contrário dos dias anteriores, elas não desapareceram e mantiveram-se constantes; foi assim que eu soube que a minha bebé tinha decidido nascer. Seguindo a orientação da minha parteira, fui dormir para guardar a minha energia. Às 3h da manhã liguei para ela para avisar que já estava em trabalho de parto. Mesmo ela sabendo que ainda faltava muito para o momento do parto, ela se deslocou até a minha casa porque sabia que eu era mãe de primeira viagem e não sabia o que esperar. Sabia que me sentiria mais calma com a presença dela. Isso foi muito gentil da parte dela, adorei o gesto.

Então, fui dormir de novo, 5h da manhã a parteira (Uta) chegou. Lhe acomodamos na sala e fomos todos dormir. Às 7h acordamos. A Uta foi passear, comer algo, etc. Eu comi, tomei um banho morno, fui caminhar com a minha mãe.. tudo isso com as contracções a progredir mas eu estava de muito bom humor.

Lá fui gerindo as dores com a respiração e dormindo quando podia, comi chocolate preto para manter a energia alta e bebi água de côco para me manter hidratada. A partir das 16h fiquei no quarto… Criei um ambiente calmo: cortinas fechadas, incenso, música, boa temperatura ambiental. A parteira sénior (Karin) chegou lá para as 19h. A bolsa estourou às 20h, as dores intensificaram. Em determinado momento eu fui ao chuveiro ficar debaixo da água quente porque não aguentava mais, até pensei em desistir e pedir para ser transferida para a maternidade que estava logo atrás do condomínio, mas logo que pensei isso eu senti que a dilatação tinha chegado ao fim e estava na hora de fazer força. Gritei pela Uta e a Karin (que se não estavam a me fazer carinho me deixavam em paz e sozinha) para virem agarrar a bebé. A minha mãe estava na porta a me dizer para fazer força. Quando senti a cabeça cabeluda da bebé, foi um momento sem igual, toda a minha força voltou. Fiz força duas ou três vezes e a minha Ayana nasceu (no chuveiro! Eu posicionada de cócoras), à meia noite e 33 minutos no dia 19.

A Uta me entregou a bebé, chorei! Levantei com ela nos braços e fui para a cama (pusemos resguardos para não sujar) e esperamos a placenta sair. Eu estava a tremer horrores, mas muito feliz, incrédula e cheia de adrenalina. Liguei pro pai da criança para celebrarmos. Depois esperamos o sangue do cordão umbilical passar para a bebé e eu mesma cortei (o cordão tem uma textura gosmenta muito interessante). Pesaram, mediram e inspeccionaram a bebé (tudo à minha frente) e estava tudo bem com ela. Só deu um chorinho quando nasceu e apanhou logo sono.

Depois de limpas e cobertas, o meu pai (que estava a morrer de preocupação na sala) entrou para cumprimentar a netinha. Depois dos suspiros de alívio nos deixaram as duas descansar. Algumas horas depois, o pai da criança aterrou em Portugal para conhecer a sua filha e continuam inseparáveis até hoje.

Eu tive um puerpério difícil, mas amei o meu parto, amei o facto de ter me permitido sonhar com o que *eu* queria e não o que é o normal para todo mundo. Sou grata ao meu marido por ter tido a mente aberta e ter lido todas as matérias que enviei para ele sobre parto domiciliar, por ter criado as condições para que eu pudesse ter essa experiência, e por me defender quando as pessoas tentam me julgar e atacar pela minha escolha (coisa que é muito frequente).

Desde que pari só vivo extremos (tanto de momentos bons como maus) mas me sinto bem mais à vontade comigo mesma, mais confiante, tanto que partilho essa história (antigamente tudo para mim era assunto privado). Perdi o medo da dor e de passar vergonha. Amei conhecer a “Ella Mãe,” mal posso esperar para gestar e parir de novo.

Espero que essa história sirva de alguma coisa para alguém.

-EllaVD