Joana Fartaria

Não sei se trago de outra vida sabedoria de sereia mas sempre senti que parto é para acontecer na água. E quando fiquei “de esperanças” (o que eu gosto desta expressão e da sua poesia) não houve sobre este assunto dúvida que tivesse de dissipar.

Dúvida minha, entenda-se, porque à minha volta as dúvidas e os medos cresciam como ervas daninhas em época de chuvas.

Eu não os ouvi. Não podia. De onde eu estava, do trono morno e doce de Deusa criadora onde repousava, não ouvia nada senão o tumtum acelerado do coração do meu bebé em compasso com o meu. Conversávamos. E decidíamos.

Disseram-me que “não podia ser”, que era “perigoso”, “uma moda”, “um egoísmo” meu. Que só podia acontecer “no estrangeiro”, “no privado”, “com cunha”, “com muita sorte”, ou entre os peixes do mar… O medo como se sabe não é boa companhia para uma mulher grávida, e eu, como disse, estava de esperanças, e cheia delas, não os ouvi.

Durante as nove luas eu li muito e investiguei mais ainda. Fiz visitas a hospitais muitas vezes sozinha, e com calor. Levei o meu companheiro, muitas vezes relutante, a encontros e reuniões e… relembrei muita coisa de que me tinha esquecido. Acredito que escolhemos, os três!, a água para o nosso primeiro encontro.

Água como nós, sem peso mas profunda, transparente mas intensa, forte porque fluía… Somos feitos de água, ou esquecemos isso também? E por isso foi veículo de cura, canal do meu poder e espaço para o meu corpo agir pleno na sua sabedoria.

Parece complicado? Mas não, apenas confiei.

Apenas isso. E re-nas-ci. Nada menos do que isto.

Porque sou Mãe d’Água?

Para que também possas parir assim.

 


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