Marina Subtil

Mariana SubtilSou Mãe do Gabriel, que nasceu na água no HSB, pelas mãos da Enfermeira Celeste Varela (a minha “fada invisível”, tão discreta, mas de tão sábias palavras). Quando engravidei não foi logo claro este caminho que me junta actualmente ao grupo das Mães D’ água.

Como cheguei ao parto na água? Para isso é preciso voltar um pouco atrás no tempo.Em Março de 2008 durante um fim de semana dedicado ao teatro, no Bombarral, caí de um baloiço. Ainda hoje guardo memória exacta da dor dilacerante que senti… querer gritar e não conseguir, respirar e parecer que o meu corpo já não o sabia fazer…

Tive assistência imediata e fui levada a um hospital. Na altura estávamos no início do encerramento de uma série de unidades hospitalares e foi preciso ir a duas para fazer um raio-X. De diagnóstico “reservado” fui encaminhada de ambulância para Lisboa.

Foi uma viagem… como direi… tramada. As lágrimas iam e vinham, e eu sentia-me absolutamente sozinha, sem saber o que me esperava. Chegámos ao Hospital, e fui rodeada de toda a perícia médica, exames e “conhecimento”… mas as lágrimas insistiam em não me abandonar. Tudo estava a ser feito com o máximo de cuidado e maior rapidez mas eu senti-me completamente “abandonada”. Na verdade recordo com melhor clareza uma médica que passava por ali e me enxugou as lágrimas do que propriamente o médico que me tratou e informou que tinha apenas uma vértebra partida.

Este episódio marcou-me muito!! Eu estava rodeada de técnicos que tudo fizeram para o meu bem estar e ainda assim só consigo lembrar-me do frio dos corredores, da ausência de qualquer ligação afectiva, da solidão de não ter uma mão amiga a segurar a minha.

Este episódio parece não ter qualquer ligação com o de um parto. Mas tem!

Para mim teve. Quando engravidei associei isto que eu vivi, com todas as histórias que ouvira antes de mulheres a parir “sozinhas”, condicionadas à “sorte” da equipa de técnicos que lhes calhasse no dia do parto. E uma coisa era certa: eu não queria isso para mim.

A maneira como a mulher recebe o seu filho não pode depender de “sorte”, da boa-vontade e/ou boa disposição dos profissionais envolvidos. Sorte é ganhar o Euromilhões, o parto não é isso. E eu queria o “meu António” ao pé de mim.

O António… um rapaz forte mas sensível… várias vezes me disse:

– Mas tu queres que eu caia para o lado e tenham de me dar assistência a mim em vez de estarem concentrados em ti?

– Ah! Ah! Ah! – Eu ria, mas não podia ignorar os receios que mostrava, a angústia e o sentimento de impotência que ele dizia ter medo de sentir, por não poder fazer nada para me ajudar durante o parto… (Ah se ele soubesse que apenas a presença dele ajudou tanto!)

Com esta vontade no coração eu tinha de arranjar um plano. E foi então que surgiu esta hipótese no horizonte (água à vista!!)… a ÁGUA! A hipótese de parir na água surgiu como um modo de envolver ambos activamente no parto, e como veículo de uma memória suave, como ela só. Quanto mais investigação fazia sobre a gravidez e parto mais o parto na água me atraía.

Relatos de episiotomias, “toques malandros”, datas marcadas para provocar o parto… tudo era muito estranho para mim, e não conseguia perceber a razão destas “ajudas” ao que a Mãe Natureza pode e sabe fazer há séculos! Investiguei sobre a epidural, os riscos da indução, os casos das cesarianas a pedido… e percebi. Percebi claramente o nosso caminho. E o António foi grande… um elemento crucial… porque soube deixar crescer em mim esta Mulher que queria (e podia!) parir o filho de forma natural.

Eu seria capaz! E fui! E ele acreditou ainda antes de mim…

Estou aqui porque desejo que mais mulheres possam ter o privilégio de guardar uma memória tão mágica, tão calma, tão boa como a que eu tenho do nascimento do Gabriel. (Não obstante alguns incidentes com a comunidade médica que foi preciso enfrentar, mas essa é outra história que ainda hei-de contar).

Bem haja a toda a equipa de Setúbal que foi pioneira de um serviço público com esta opção. É triste e lamentável toda a situação criada para eliminar esta hipótese que era dada aos casais.

Trabalho todos os dias (uns mais do que outros) com estas mulheres cheias de garra, para que o parto natural, respeitado, e na água!, seja uma realidade nacional, gratuita, acessível a todas, e não dependa do acaso, como uma cautela que tem a sorte de ter a numeração premiada.

Por isto sou Mãe D’ Água.

 


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