[Relato de Parto #1] Joana Fartaria Mães D'Água / Relatos

Com amor.

Relato de ritual de iniciação – a maternidade!

Querido tumtum (este não é o nome real do meu filho, mas foi assim que sempre o chamei, por causa do som do seu coração dentro de mim tumtum tumtum tumtum).

Nesse dia eu sabia que tu chegavas. Porquê? Porque tu falaste comigo, como falavas sempre que eu te pedia para te mexeres. Ou porque estava no CTG e não queria ficar lá muito tempo; ou porque estava preocupada de “não te sentir”; ou porque a tua posição era desconfortável para mim, e te pedia para mudares, ou porque… Porque sou tua mãe. E as mães e os filhos, como toda a gente sabe – falam!

Eu quero recontar o meu parto.

Eu quero falar sobre aquele momento em que deixando nascer, nascemos também.

Eu sempre ouvi dizer, e gostei da ideia, de “dar à luz” ser como um renascimento, e apreciava a poesia desta acção mas… desde que tive o meu filho que sei que não é poesia! É verdade! Renascemos mesmo!

Eu sempre senti o meu filho, desde o momento da concepção (sim, eu senti!), até ao dia do parto em que eu, “cheia” como uma Lua, sentia um filho calmo e pronto para sair.

Posso contar e recontar como quiser este dia, mas há quatro frases que tenho de referir sempre:

O “ok, tell me, what do I need to know?” do meu marido quando percebeu que o momento tinha chegado (e se preparava para perguntar ao Google o que fazer);

A frase “já está em trabalho de parto activo, não quer ir para a praia?” da enfermeira Madruga que me recebeu nas urgências;

A “lemos o seu plano de parto e sabemos tudo como deseja que aconteça mas agora, neste momento, eu gostava de saber, o que é mais importante para si?”, que a enfermeira Maria João me perguntou mesmo antes de eu entrar na piscina;

E a frase “agora a Joana vai virar-se, deitar-se sobre o seu marido, para receber o seu bebé” dito com toda a calma pela enfermeira Celeste Varela no momento da expulsão.

Joana Fartaria - Parto na Água

Posso recontar como quiser mas há alguns gestos e sensações que não consigo esquecer:

O lençol que uma das enfermeiras me deu para estender no chão, quando percebeu que eu andava a fazer a dilatação pelos corredores e o que me dava mais conforto era ficar de gatas;

A sensação morna da água, onde me sentei nua, e o alívio imediato da minha dor, fazendo-me sentir grande, leve, livre.

O abraço que eu e o meu marido demos quando as contrações eram mais fortes e ele perguntava “what can I do, love?”;

As mãos fortes de uma enfermeira (soubesse eu o nome!) que se sentou à minha frente e disse “Joana, agora chegou mesmo a hora de fazer força, comigo!”;

As mãos sempre suaves, quase imperceptíveis da enfermeira Celeste;

O cabelo do meu filho nas minhas mãos quando o toquei pela primeira vez, ainda dentro de mim;

A sensação de ter presenças perto de mim… (Dizem que quando parimos nunca estamos sozinhas, mas sempre acompanhadas de todas as parideiras, de todos os tempos. E elas vieram, eu sei);

E a sensação absolutamente poderosa de sentir o corpo do meu bebé a sair de dentro de mim, todo o corpo (depois de a cabeça ter saído há algum tempo) do meu filho que escorregou para fora de mim, abrindo zonas do meu corpo e do meu ser até aí fechadas, fazendo a minha anca DANÇAR! Sacudida assim com o seu tamanho!

Posso recontar como quiser mas há sons que não me posso esquecer:

O som do mar, quando fui à praia;

O som das músicas que escolhi para ouvir – e que uma enfermeira me lembrou que podia tocar – e o som da minha própria voz a cantar. Sim, eu dei à luz a cantar o mantra Gayatri. Não estava nos meus planos cantar, mas os mantras foram feitos para isso mesmo, para auxiliar e potenciar a respiração e o estado de meditação que pode vir com isso. E eu respirei cada frase desta música com todo o meu corpo, e sei que o meu bebé, na sua rotação suave, que eu sentia tão forte na minha virilha esquerda, ajustando o seu corpo ao meu, mais e mais próximo dos meus braços, sei que ele sorria “a minha mãe canta!”;

Lembro-me da palavra que eu dizia para o meu corpo “ABRE”.

Posso contar como quiser mas tenho de falar dos sabores… Do sabor da gelatina que comi sentada na água, sorrindo entre contracções, “why can’t I have one?” dizia o meu marido;

Do sabor da água, meio doce, que entrou na minha boca quando passei a mão pela cabeça para aliviar o calor.

Posso contar e recontar mas há imagens que não desaparecem:

A visão de mar, na praia;

O cartaz com um bebé a nascer dentro de água, no hospital;

A visão tão familiar de uma enorme bola azul, igual à minha, debaixo do duche;

A visão do meu marido a chegar à piscina em roupão branco como se fosse para um SPA;

A visão – que era mais uma sensação, porque eu pouco “via” neste momento do parto – de tantas caras na sala comigo, e a voz que me dizia “estamos muitas aqui, se quiser saímos, vieram por causa da música, outras de turnos anteriores não conseguiram sair”;

E a visão mais do que mágica, a visão divina do tumtum assim, nu e inteiro, ainda debaixo de água!

Foi como se… Como se eu tivesse viajado assim para o mundo dele, percebem?

Os seres antes de passarem para este lado do mundo vivem uma existência paralela, num elemento tão diferente do nosso, com sons contínuos e iluminados apenas de sombras, um mundo paralelo que eu partilhei por alguns segundos. Enquanto estamos eu e o meu bebé sentados na mesma água há um encontro “half way” do mundo dele e do meu… Percebes? Isto é para lá de mágico!

Joana Fartaria - Parto na Água2

Este foi o meu dia, 7 horas e meia de encontro até sentir o tumtum no meu peito, até eu cortar o cordão umbilical – o meu marido não o queria fazer “me? No, it is not for me to cut them appart” – dizendo “meu querido filho, estás agora livre, já não me pertences mais”. Até parir a minha placenta, até serem recolhidas as células estaminais e eu ser observada, e ir à casa de banho (por meu próprio pé) e… Pela primeira vez dar de mamar…

E é como ter-te de volta tumtum, passaram três anos, e é sempre assim que nos aproximamos, a mama. Agora dormes, no meu peito, este relato vou-to oferecer.

tumtum tumtum tumtum

Eu sabia que tu ias chegar.

Porquê?

Porque sonhei contigo.

~ Joana Fartaria


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)