[Relato de parto #10] Isabel Ferreira (terceiro) Especiais / Relatos / Ser Parteira

~ Nascimento da Margarida ~

Chega então o momento de descrever o nascimento da minha terceira filha, a Margarida… numa palavra: PODEROSO!!
A gravidez da Margarida foi a mais serena e deliciosa das três, com muito mimo e carinho do meu marido e dos meus dois filhotes. Desta gravidez já não tive necessidade de fazer tudo da mesma forma que fazia antes de estar grávida, e dei a mim mesma, e à minha pequenina Margarida, a oportunidade de gozar em pleno este estado de graça, maravilhoso e cheio de riquíssimos cocktails hormonais. Permiti-me estar verdadeiramente grávida, no auge da minha feminilidade!! Mimei-nos com descanso, arte, música, massagens… na verdade, rejuvenesci!

O dia do parto aproximava-se e interiormente murmurava: vem linda Margarida, a tua família aguarda com muito amor a hora de te acolher neste teu novo mundo.

Tudo em casa estava preparado para o grande momento… desta vez não iria sair do meu ninho – planeámos parto em casa com a nossa maravilhosa equipa de amigas e parteiras: a Sónia Rocha, a Joana Faria e ainda a querida Júnia Lima, que por sorte estava no Norte a passar as férias de Natal (sim, porque a doce Margarida deixou toda a gente à chamada nesta época festiva).

O dia 29 de Dezembro de 2014 chegou… de manhã começou a sair o rolhão mucoso, juntamente com a sensação maravilhosa de suaves dores menstruais, que anunciavam o início de uma nova jornada de vida… abraços que o meu corpo dava e que massajavam a pequenina Margarida, e a preparavam para a mágica jornada do seu nascimento… estava super feliz!!
Fui almoçar com a Júnia e comemos um grande gelado de sobremesa. Enquanto fomos conversando, sentia-me entusiasmada que a energia crescia dentro de mim e dizia baixinho para a pequenina Margarida: “vem filhinha, vem… estou aqui para ti, será uma aventura que viveremos as duas, lado a lado!”.

Já de noite, 21h, depois de deitar o Gonçalo e a Margarida, decidi tentar dormir um pouco… deitei-me e consegui descansar. O meu marido também adormeceu.

30 de Dezembro de 2014 – o grande dia!! Pela 1h as contrações ficaram mais próximas e intensas e já não era possível ficar deitada durante as contrações. Todos dormiam, enquanto eu e a Margarida dançávamos, em silêncio, celebrando a cada contração a proximidade do seu nascimento. Lembro-me de ficar fascinada com a diferença que determinadas posições e movimentos que ia tentando faziam em termos de conforto. Como não queria acordar ninguém, tentava vocalizar silenciosamente durante as contrações, que é como quem diz fazer um montão de caretas super engraçadas, que tenho muita pena não terem ficado filmadas! Às 6:30 o resto da família acordou e às 7:30 chegou a equipa de parteiras. Encheram a banheira com água quente e aí mergulhámos, eu, o meu marido e a pequenina Margarida, ainda dentro do meu corpo.
Uma energia imensa continuava a crescer em mim. O som saía agora poderoso da minha boca, do meu corpo, das minhas entranhas e ecoava em toda a casa… “BOOOOAAAAHHHHHHHHHH”! Sentia-me grande, uma grande “mãe ursa”, branca, poderosa, linda, feroz… mas muito, muito feminina.
E eis que sinto a Margarida a iniciar a sua tão esperada descida e a deslizar os ombros pelos ossos da minha bacia. Lembro-me de dizer ao meu marido: “está quase, quase… esta é a fase pior!!” e sorria (no intervalo das contrações, claro). A expressão dele era maravilhosa…
Foi perfeito tê-lo dentro de água, ao meu lado, disponível para tudo… para me ouvir, para acreditar em mim, e para que eu pudesse saltar para o seu colo no intervalo das contrações, e usufruir daqueles maravilhosos momentos de pausa, banhada por uma dose extraordinária de amor incondicional, que só ele mesmo me poderia dar – obrigada meu amor, são dádivas que nunca esquecerei!!
Num desses intensos momentos entrei em mim, bem fundo, e pedi ajuda à minha querida filha Margarida… que me ajudou!! Uauu… que mágico… ela mesma se empurrou para nascer! Saiu a pequenina cabecinha e coloquei a mão para a sentir… ainda hoje a minha mão tem gravada essa memória e emociono-me sempre que a consulto. Mais uma contração e a pequenina Margarida dá o saltinho final para um mergulho glorioso às 10h20… tomei-a nos meus braços, em êxtase e sentindo-me muito agradecida: “Ohh minha filha… bem-vinda filha, bem-vinda!”.
Mais uma vez a placenta nasceu antes que o cordão fosse clampado e cortado pelo meu querido marido, inaugurando o momento ao som de “parabéns a você…” – não me lembro se cantado em voz alta, se apenas na minha cabeça, em celebração.
As contrações que se seguiram, para ajudar o útero a contrair, foram difíceis… as chamadas “dores tortas”… que ficam mais tortas ainda de filho para filho… Valeram-me as massagens da Júnia, e o miminho do meu marido, e do resto da equipa de parteiras, para retomar a energia e conseguir sair da banheira em direção à minha cama, quentinha, acolhedora e familiar.
Foram momentos inesquecíveis de força e luz, e a Margarida foi acolhida com muito amor também pelos irmãos, com emocionantes abraços calorosos, e beijos super doces… uma delícia!

Agora, sinto-me mais realizada do que nunca, com os três filhos que sempre idealizei e um marido sensacional… rodeada de vida, amor, alegria… enfim, sinto-me abençoada e muito, MUITO FELIZ!!

~ Isabel Ferreira


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.