[Relato de parto #8] Isabel Ferreira (primeiro) Especiais / Relatos / Ser Parteira

~ Nascimento da Eduarda ~

24 Fevereiro 2010 – 4ª feira

Querida filha,

Acordei ansiosa, pensando na conversa importante que planeara ter nessa quarta feira de manhã, durante a consulta, sobre as opções e escolhas para o teu nascimento, o nosso plano de parto.

Para que nenhum ponto que considerava importante ficasse esquecido entre argumentações, optei por escrever uma carta para a obstetra, que lhe li em voz alta no início da consulta, permitindo com que fossemos discutindo ponto a ponto os aspectos nela abordados.

Resumidamente, o conteúdo da carta mencionava a minha vontade em conseguir oferecer-te um nascimento com o mínimo de risco possível, sem medicamentos ou intervenções, a não ser se fossem verdadeiramente necessários para o teu bem-estar. Para isso, mesmo estando consciente do longo, doloroso e por vezes difícil e assustador caminho que poderia ter de atravessar durante o trabalho de parto, estava disposta a fazê-lo sem auxílio de medicamentos, por ti.

No entanto, sabia que o apoio da equipa de saúde era fundamental para completar essa jornada e era basicamente isso que pedia: que acreditassem na minha capacidade para te trazer ao mundo de forma natural, e que me apoiassem nesta minha escolha.

Apesar disto, e porque sei que por vezes a natureza segue alguns rumos inesperados, salientei ao longo de toda a conversa que as minhas escolhas se baseavam apenas no caso de se manterem as esperadas condições de segurança, tanto para a mãe como para o bebé, e que, no caso de algum imprevisto poder ocorrer, confiaria na equipa para tomar as decisões e as intervenções necessárias, que poderiam inclusive passar por atitudes mais invasivas, como um parto instrumentado ou por cesariana, assim como por suporte neonatal.

A obstetra concordou apoiar-nos nas nossas escolhas, o que nos descansou profundamente, a mim e ao teu papá… no entanto, alguns sinais negativos já pairavam no ar, nomeadamente o facto de durante toda a consulta a médica ter mencionado pelo menos três casos de partos com situações urgentes de vida ou morte, alguns deles com desfechos terríveis… no entanto, isso permitiu salientar mais uma vez, de cada vez que cada caso era mencionado, que estaríamos receptivos à instrumentalização do parto nas situações verdadeiramente necessárias.

Lembro-me de sair da consulta e dizer para mim mesma e para ti, silenciosamente: “Já foram exploradas todas as opções, a equipa está informada das escolhas e aceita-as, pelo que agora sim, já podes vir, estou pronta para te receber – vem filhinha, quero ver-te!”.

Ao longo dessa 4ª feira surgiram as primeiras contracções tipo “dor menstrual” e senti que o processo estaria a desencadear-se. Como era minha extrema vontade empenhar-me o mais possível nesta nossa jornada, nesse dia, por todo o lado por onde andei, não utilizei o elevador e ao longo do dia subi pelo menos três vezes todas as escadas do prédio que nos levam até casa, no 5º andar. A sensação de que estaria perto o teu nascimento aumentava, mas optei por não dizer nada ao teu papá, pois ainda não tinha a certeza e não queria que ficasse muito ansioso com a situação… era como se fosse um segredo só nosso…

Adormeci nessa noite depois de conversar mais uma vez contigo e de te dizer: “vem filhinha, a mãe está preparada para te receber, demora o tempo que precisares: quando chegares encher-te-ei de miminhos”.

25 Fevereiro 2010 – 5ª feira

Dormi muito bem e acordei bem “fresquinha”. De manhã não senti qualquer contracção dolorosa, mas durante a tarde voltaram de novo. Mais uma vez tive o cuidado de caminhar bastante e de subir vários lances de escadas, pois sabia que te iria ajudar a encaixar melhor no corpo da mamã, para que te preparasses para a saída, que silenciosamente eu sentia estar muito próxima.

Quando me deitei nessa noite, acreditava ainda mais do que na noite anterior que o processo do nascimento já se teria iniciado e que para muito breve estarias nos braços da mamã e do papá.

26 Fevereiro 2010 – 6ª feira

Fui acordando durante a noite, como era já hábito nestas últimas semanas de gravidez, desta vez não por vontade de urinar ou por sentir os teus movimentos quando acordavas, mas sim porque sentia algum desconforto tipo dor menstrual, que me mostrava que o meu corpo se estava a encher de energia para o parto. A partir das 3:00 as contracções começaram a tornar-se mais regulares e comecei a reparar que abria os olhos aproximadamente de 10 em 10 minutos.

No intervalo das contracções sentia a tua energia e a tua força, e sorria, pois sabia que estavas também forte, saudável e feliz por estar próximo o momento do nascimento.

Às 7:00 as contracções permaneciam ligeiras, mas regulares, de 10 em 10 minutos, e telefonei à Júnia. Combinámos que viria no comboio que haveria de chegar ao Porto por volta das 13:00.

O papá entrava a trabalhar nesse dia às 11h. Depois de acordar, sentamo-nos no sofá um pouco e eu disse-lhe que talvez estivesse para breve, para ele se ir preparando pois este fim-de-semana seria muito provável que ele fosse já ter a sua pequenina nos braços. A reacção do papá foi: “Ui… já?!… será mesmo?” – uma mistura do “que bom” com o “que assustador”. Não entrei em muitos pormenores, e o papá não se apercebeu que as contracções de trabalho de parto já tinham iniciado.

Quando a amiga Júnia chegou, verificou que estava com 2 cm de dilatação do útero, almoçou comigo aqui em casa e fomos de seguida fazer uma grande caminhada. Eu estava cheia de energia e com vontade para caminhar Km….. coitada da amiga Júnia, ter de acompanhar toda essa “pedalada”…. depois de vários km andados, decidimos regressar, mas antes parámos para comer um delicioso geladinho à beira mar.

Pelas 21h as contracções estavam mais intensas e eu tinha já a certeza que o trabalho de parto tinha iniciado. O teu papá chegou a casa e fez-me algumas massagens, embalou-te com o rebozo e deu muitos miminhos à mamã. Agora que o papá estava perto, disse à Júnia para ir para a sua casa no Porto, para descansar, que mais tarde chamaria, quando estivesse mais avançada. A bolsa de águas mantinha-se intacta e no intervalo das contracções continuava a sentir a tua energia e a tua força – não conseguia parar de sorrir de tão feliz que estava pelo processo se ter já iniciado.

Fomos para a cama, mas não consegui manter-me deitada – as contrações estavam a tornar-se muito fortes e precisava de me levantar e balançar a pelve para relaxar enquanto elas iam fazendo o seu trabalho. Levantei-me devagarinho para não acordar o papá e fui para a sala.

27 Fevereiro 2010 – Sábado

Tu e eu estivemos numa dança muito íntima e especial até às 6:30, altura em que rompeu a bolsa de águas e entrei verdadeiramente em fase activa de trabalho de parto – 5 cm de dilatação do útero. Chamei novamente a Júnia que a partir daí foi como um precioso e discreto anjo, que vigiava atentamente todos os sinais positivos de segurança, o que me permitiu sentir segura, protegida e assim entregar-me por completo a ti.

Para minha surpresa, quando as contracções se tornaram verdadeiramente intensas, as massagens que no início tanto me relaxavam tornaram-se desconfortáveis e até mesmo intoleráveis. As únicas mãos que tolerava no meu corpo eram as do teu papá, mas apenas em forma de abraço, de contenção. Fechei os olhos e entreguei-me toda a ti. Quando vinha uma contracção, conversávamos: “Relaxa Isabelinha, relaxa Dadinha, vamos filha, estou à tua espera, não tenhas medo, vem….” – dizia eu, em voz alta, continuamente, como se o som me ajudasse ainda mais a relaxar e a acreditar que estava cada vez mais perto o momento em que teria a nossa pequenina nos braços. Enquanto isso, o teu papá ia-me guiando pela sala, para que não fosse contra os móveis enquanto caminhava durante as contracções, e para me fazer sentir segura, protegida e amada – fez isto muitíssimo bem!

“Relaxa Isabelinha, tens de relaxar para mostrar o caminho à tua filhinha que precisa de toda a tua força” – pensava eu continuamente, no intervalo de cada contracção.

Quando as contracções se tornaram extremamente intensas e já com 6 cm de dilatação do útero, a Júnia e o Papá encheram a banheira de água morninha, onde mergulhei, e colocaram-me uma toalha molhada em cima da barriga… que maravilha!!! Nem imaginas como foi bom sentir o mágico relaxamento da água, o meu corpo levezinho, boiando… Não me recordo de muitos pormenores desses momentos, talvez porque cheguei a adormecer por 10minutos, segundo a Júnia e o Papá, o que foi fundamental para recarregar energias para o “turbilhão energético” que ainda estava para vir. Ainda na banheira, descobri que ao soltar sons durante a expiração conseguia relaxar muito mais durante as contrações, ajudando-me a aceitar e entregar a elas e a toda a intensidade do momento.

Pelas 11h, 7 cm de dilatação uterina, malas prontas, decidimos contactar a equipa de saúde e ir para o hospital. Fora de água as contracções eram bem mais intensas e estava a tornar-se muito difícil relaxar, não via a hora de voltar a emergir, pelo que ligámos para o bloco de partos para pedir que fossem já enchendo a banheira de parto para que pudesse entrar de novo na água mal chegasse ao hospital.

Quando chegámos ao hospital, foram pelo menos 10 minutos (que parecem horas) para “pormenores administrativos”, antes que passássemos da porta das urgências, mas uma vez no interior fomos recebidos por um médico obstetra muito disponível. O médico acompanhou-nos calmamente, sem stress e com muito respeito, até a uma porta. Quando entrei, não quis acreditar quando me apercebi que a ideia era deitar-me numa maca, com as pernas abertas, para que ele me pudesse observar e confirmar que eu estava em verdadeiro trabalho de parto, antes de ir para o bloco de partos onde a “banheira cheia de mágica água relaxante” me aguardava. Olhei para ele com o meu olhar mais suplicante e a minha voz mais meiguinha e disse: “oh Doutor, não me diga que me quer observar ali na maca!? Por favor olhe para mim e acredite, eu ESTOU EM VERDADEIRO TRABALHO DE PARTO… Felizmente ele acreditou.

Pelas 12h20 mergulhei de novo na banheira senti um grande alívio, mas desta vez não houve lugar para “dormitar” e sempre que vinha uma contracção lá estava o papá ou a amiga Júnia a agitar a água na zona das costas ou a direccionar para lá a água do chuveiro.

Às 13h chegou a obstetra que mal me cumprimentou… estava visivelmente nervosa, tensa. A pediatra que tínhamos escolhido para fazer parte da equipa não estava disponível e teve de ser substituída… Comecei a sentir-me receosa (pela primeira vez desde que tinha entrado em trabalho de parto). Às 13h30 chegou a pediatra, que se dirigiu de imediato à médica obstetra mal entrou na sala, e nem sequer me cumprimentou, ou olhou para mim.

Comecei a sentir que o momento se aproximava, e tentei ignorar o facto, percebido, de que a equipa de saúde que entretanto chegara estava muito nervosa e tensa, centrando-se exclusivamente na leitura do papel de cardiotocografia… não houve sequer uma palavra de encorajamento, ou qualquer referência ao bem-estar materno e fetal.

Pelas 14h a médica obstetra faz o toque e refere que a dilatação está completa, pelo que eu deveria sair de imediato da água para me posicionar na marquesa de parto – “obedeci” de imediato, procurando mostrar-lhe que mantinha o que tínhamos combinado: não fazia questão que o nascimento fosse dentro de água, apenas que me respeitassem e apoiassem e que não realizassem intervenções que não fossem necessárias e essenciais para manter a segurança da díade mãe-bebé. Percebi que isso não iria ser uma realidade pelo tom de voz directivo (que interiorizei como ameaçador…) da obstetra e pelo facto de não permitir (conforme tínhamos combinado) que a marquesa fosse posicionada de forma a permitir o parto em posição de cócoras, em vez da tradicional, prejudicial e limitativa posição ginecológica. Para que não se “acendessem” conflitos, que era tudo o que eu não queria naquele momento, posicionei-me conforme indicado. Sentia-me nervosa, vulnerável, sentia que não acreditavam que eu ia ser capaz de te abrir as portas para o mundo e que iriam intervir desnecessariamente.

À medida que as intervenções iam surgindo, a minha tensão e o meu medo aumentavam – sentia-me ameaçada e sentia que estavas ameaçada também por causa disso. Quando ouvi falar em ventosa foi o terror!!!! Mas nunca me recusei a nada pois sempre pensei: “não me parece que isto que estão a fazer seja necessário, mas se calhar eu não estou a ser capaz de interpretar bem os teus sinais, se calhar preciso mesmo que me ajudem a trazer-te ao mundo, pois de outra forma vai ser mais penoso para ti…” e só dizia em voz alta “Eu vou fazer muita força, eu sou capaz, eu sei que sou capaz, só mais um pouco….” – dizia em voz alta para me encorajar, para acreditar, pois mais ninguém o fazia, e nitidamente a obstetra nunca acreditara de que eu seria capaz.

“Tem paciência mas vou fazer episiotomia prévia!”- disse a obstetra… sem dizer o motivo da decisão… que tive receio de perguntar para que não ficasse ainda mais “zangada e tensa”. Disse eu “Pronto, se é necessário, tudo bem…”. Lembro-me nesse momento de ficar atenta aos ruídos do CTG que indicavam no intervalo das contracções que o teu coraçãozinho se mantinha a bater dentro dos parâmetros normais, e de dizer em voz alta: “Ela está bem no intervalo das contrações, os ruídos cardíacos estão normais”. Lembro-me da médica responder a este desabafo “Está bem, mas não será por muito tempo, se continuarmos assim. Tens de puxar, mas provavelmente só vamos conseguir com ventosa. Tens a bacia estreita e o períneo muito duro!” – e pronto, de repente, o meu corpo, do qual eu estava tão orgulhosa, parecia trair-me, que não estava à altura do desafio – estávamos nesta altura apenas há 20 minutos em cima da marquesa…

Fez episiotomia prévia, muito dolorosa.

Empurrei, mesmo sem ter grande vontade, com todas as minhas forças, durante a contracção. Sempre que a médica colocava as mãos no interior da minha vagina, sentia-as como uma agressão profunda, inimaginável, sentia-me verdadeiramente “VIOLADA”. Era insuportável e incompreensível a necessidade emergente, que a obstetra demonstrava cada vez mais, de me retirar qualquer controlo sobre o meu corpo e sobre o processo de parto, e de assumir ela o comando, esperando que eu obedecesse cegamente a todas as suas instruções. Ignorando por completo as mensagens que o meu corpo me enviava, e “obrigando-me” a tentar empurrar-te para o mundo, mesmo quando não tinha contracção, como se tivesses hora marcada para sair, como se tivesses a sofrer com a espera…. e a ideia de que pudesses sofrer com isso aterrorizava-me mais e mais…

A obstetra aplicou a ventosa e lembro-me de pensar: eu consigo, mesmo sem contracção eu vou empurrrar com todas as minhas forças e vou-te ajudar a sair. filha, para que não sintas a força aterrorizadora do vácuo da ventosa na tua cabecinha pequenina e frágil… lembro-me de pensar: “Perdoa a obstetra filha, ela não tem consciência do que está a fazer…”
e depois de pensar: “Terei a ser injusta? Estará a minha filha a precisar mesmo da ventosa?… Oh meu Deus, meu Deus dá-me forças, ajuda-me… Puxa Isabel, puxa, puxa, puxa, PUXA!!!!!!”

A primeira aplicação da ventosa foi mal sucedida e o barulho do vácuo a desfazer-se da tua frágil cabecinha foi insurdecedor: “Que foi este barulho?” – Perguntou o teu pai, frágil, nervoso, assustado, sentindo-se pequenino, perdido e com medo perante toda aquela agressividade. Não consegui deixar de penar: “Desculpa filhinha, minha filhinha, desculpa…”

Finalmente saíste e foi um alívio sentir que o “terror” parecia terminado… Parecia no entanto que ainda estavas dentro de mim, que não estava já ali sobre a minha barriga, à espera dos meus miminhos… Estavas suja de mecónio das nádegas, para baixo – “SOFRESTE NO PERÍODO EXPULSIVO!!” – este pensamento foi como uma faca no meu coração, e dos meus olhos corria um verdadeiro rio. Nunca a obstetra deu palavras de encorajamento durante o parto, só directivas, e quando nasceste, a caminho das mãos dela para a minha barriga, as suas primeiras palavras foram mais ou menos: “Nunca mais contes comigo Isabel…” Não houve nunca manifestação de carinho, nem a ti, nem a mim, nem ao teu papá… não havia carinho, só tensão e reprovação.

E depois veio a pediatra, tensa e sem respeito: “Ao menos posso ver a criança? Não sei porque é que vim…” – lembro-me de ter pensado “Mas o que se passa? Está tudo doido? Alguém disse que ela não poderia cuidar da criança? Como pode não saber porque veio, está a ser paga para vigiar o bem-estar da minha pequenina e para cuidar dela se ela necessitar, venha!” – pensei, mas guardei para mim, não disse em voz alta… A pediatra aspirou a bebé em cima da minha barriga. O cordão umbilical foi cortado pela obstetra, sem avisar, uns minutos depois do nascimento e o teu papá disse: “ohhh, não era para ser eu a cortar o cordão?….” – e eu disse-lhe: “Deixa, não é importante, o mais importante é que temos aqui a nossa filhinha, olha como é linda, como é perfeitinha!” E abracei-te emocionada, com o teu papá também emocionado ao lado, admirando-te, apaixonado. De novo a pediatra aproximou-se e disse: “posso pelo menos auscultar?”. Ao que respondi “Claro que sim, pode fazer o que achar necessário”. Tu estavas em cima de mim, sobre o meu peito, de barriga para baixo, e a pediatra diz com agressividade: “como quer que eu ausculte nessa posição, tem de virar a bebé para eu auscultar!” E ali estava eu, acabada de te conhecer, depois de todo aquele trauma, a arranjar mais um pouco de energia para me manter calma, sem mais conflitos, e virar-te eu mesma de barriga para cima para que a “senhora doutora” te pudesse auscultar.

Quinze minutos depois de nasceres começaste a gemer e eu só pensava: “Desculpa filhinha, tens dores? Dói a cabecinha da ventosa?” e dava-te mil beijinhos na tua cabecinha, cheguei até a lamber-te instintivamente… a pediatra disse: “Vamos levá-la agora, tenha paciência, agora está na altura de se deixar de pensar na mãe e começar a pensar na bebé, coitadinha” – DEIXAR DE PENSAR NA MÃE??????????????? COMEÇAR a pensar no bebé? Não pude ficar calada desta vez e disse – “Sim, leve-a para cuidar dela, mas pode ter a certeza de que TODAS as escolhas que fiz foi principalmente a pensar no bem-estar da minha filha, e se não fosse o meu amor por ela, decerto que não teria conseguido manter a calma e força durante todo o trabalho de parto, sem auxílio de qualquer medicamento, no sentido de a proteger ao máximo!!”

A pediatra levou-a e o meu marido foi junto – fiquei sozinha com a obstetra enquanto me suturava, sem no entanto dizer nunca uma única palavra de consolo, de força.

Porque gemias ainda, ficaste sobre a fonte de calor, mas a pediatra abandonou-te, tendo ficado o teu papá sempre do teu lado, a dar-te muito amor, mas preocupado e só, com medo que não estivesses bem… Lembro-me de pelo menos uma vez, ter vindo por instantes à sala chamar a parteira, para que te fosse ver, pois ele achava que a fonte de calor não estava a funcionar convenientemente.

Quase uma hora depois regressaste para mim, já vestida, mas vi que alguma coisa não estava bem…. Tentei no entanto negar e acreditar que se te desse muitos beijinhos ficarias bem e tudo passaria… coloquei-te perto da mama e os meus receios confirmaram-se: não estavas bem, não tinhas forças para mamar. Lembro-me de uma enfermeira dizer: “coloca a mama na boca dela para ela mamar” – lembro-me de forçar um pouco, mas de me aperceber, de forma aterrorizadora, e cada vez mais, de que algo não estava bem, e de dizer “ela não quer mamar, não tem reflexo de sucção”. Quando chegamos ao quarto esperavam-nos os avós e os tios, que ficaram radiantes por nos ver a chegar, mas muito assustados quando te viram a primeira vez: “A menina não parece bem, está escura!” – disse a avó, que pediu para pegar nela, para ver melhor junto da luz – entreguei-te de imediato, e eles confirmaram e disseram em voz alta o que eu sabia, temia e queria que fosse mentira: ela não está bem, precisa de ajuda, tem de vir o pediatra imediatamente – “chamem outra pediatra por favor, não a que esteve no parto”, insisti.

E depois de vir o pediatra, levaram-te e confirmaram que não estavas bem – mais tarde soubemos que tinhas apanhado uma infecção muito grave por Streptococcus B Agalactea… Correste perigo de vida… senti que o mundo ia desabar… Senti-me derrotada… quase me senti a desistir, desarmar, deixar-me ir… mas algo ainda nos unia de uma forma quase mística, e eu sabia que tinha de arranjar forças para que tu as tivesses também. Depois de te ter ido ver na pequenina incubadora, “estável”, como me disse a equipa de saúde, subi para o quarto e pedi ao papá para ir buscar a bomba para tirar o leite, para garantir que assim que pudesses comer tivesses à disposição o melhor leitinho possível, o da tua mamã. Mas antes de subir, fraca e chorosa, ainda tive de ouvir da equipa “não pode ficar aqui muito tempo agora, tem de ir embora pois a última coisa que a bebé precisa agora é da mãe. O que ela precisa é de sossego e muita vigilância e cuidados de nossa parte”…. Claro que não acreditei que não precisasses de mim, mas de facto, não me adiantava nada ficar ali a olhar para ti, sem te poder tocar, falar ou acarinhar… tinha de descansar para conseguir tirar muito leitinho para te dar, essa era agora a minha missão, pois só assim sabia que irias conseguir recuperar. Antes de subir, segredei-te “Eu sei que és forte filha, eu conheço-te! Tu és a menina forte que cresceu na minha barriguinha e vais usar toda essa tua força para venceres este desafio, eu sei que serás capaz e a mamã vai fazer tudo o que puder para te ajudar: vai tirar leitinho para te dar enquanto não puderes vir mamar directamente da maminha e assim que puderes vai dar-te muito colinho e muitos beijinhos”.

Durante a noite acordei três vezes espontaneamente, e aproveitei para estimular mais um pouco a saída de leite – consegui armazenar logo 30ml na primeira noite! No dia seguinte estremeci ao perceber que tinha acordado exactamente ao mesmo tempo que tu tinhas acordado! Mesmo não estando lado a lado, sem dúvida algo forte nos ligava à distância, e comunicávamos… mágico!! No outro dia o mesmo aconteceu… Acordei exactamente nas mesmas alturas que tu acordavas, de acordo com o relato da equipa de neonatologia.

No segundo dia estavas melhor e a pediatra permitiu que pegasse em ti e te colocasse pele a pele sobre mim… QUE MARAVILHA!!! QUE VERDADEIRA DELÍCIA!!! Tão quentinha em cima de mim, uma verdadeira ternura… foi como se tivesses nascido naquele momento, e todas as dores pós-parto que sentia desaparecerem por completo.

Naquele momento senti, pensei e disse para ti e para o teu papá: “A partir de agora tudo vai correr bem e vamos ser muito felizes!”

Foi com o nascimento da Eduarda que, como parteira, se intensificou a minha missão de lutar pelo regresso ao reconhecimento e respeito pelo verdadeiro poder feminino na gravidez e no parto. Como enfermeira parteira, através da Gimnográvida, passei a oferecer o meu apoio, com dignidade, formação e segurança, sem preconceitos, aos casais que desejarem uma experiência de parto e nascimento fisiológicos, com o mínimo de intervenção e medicalização, dentro e fora de água, no hospital ou em casa. No fundo, ajudar a criar o suporte que me faltou no nascimento da Eduarda…

~ Isabel Ferreira

Relato do segundo parto da Isabel – parto na água hospitalar – AQUI
e do terceiro, parto na água domiciliar – AQUI


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.