[Relato de parto #9] Isabel Ferreira (segundo) Especiais / Relatos / Ser Parteira

~ Nascimento do Gonçalo ~

A gravidez do Gonçalo parece que correu a um ritmo acelerado… de repente já estava no final – iria ser mãe novamente.
Com a Eduarda tão pequenina, não era fácil dedicar tempo ao Gonçalinho que crescia dentro de mim… sem me aperceber, acabei por senti-lo mais como o “maninho que está para chegar” do que como o “meu querido filho Gonçalo”.

No dia 3 de Setembro de 2012 o meu corpo começou a encher-se novamente de energia e força. Durante o dia fui sentindo mais contrações e durante o jantar, em casa da minha mãe, começaram a intensificar-se… tinha a certeza que o Gonçalo estava preparado para iniciar a jornada do seu nascimento… mas eu sentia-me ansiosa… que no dia seguinte tinha programado ir a uma consulta médica importante, com a minha mãe, por causa de uma suspeita de uma doença grave (que felizmente não passou disso, de uma simples suspeita) e talvez por isso, ou pelo calor intenso que se fazia sentir nesta altura do ano, senti-me fisicamente e emocionalmente menos disponível, do que durante o trabalho de parto da Eduarda. Fui para casa e as contracções começaram a intensificar-se durante a noite, pelo que chamei a fantástica equipa de amigas e excelentes profissionais que me apoiou durante esta minha segunda aventura: enfª parteira Sónia Rocha, enfª parteira Joana Varela e médica obstetra Radmila Yovanovich (que conduziu o seu carro nessa noite desde Lisboa até ao Porto! sem palavras para agradecer, um eterno obrigada!!).
Ao perceber que estava tão bem apoiada por esta equipa fantástica, o meu marido acabou por se afastar um pouco, como se sentisse que não poderia fazer melhor do que estas excelentes profissionais e amigas. Na altura não me apercebi o que estava acontecer… e senti a falta dos seus abraços e carinhos… Não me levem a mal as minhas queridas amigas, mas decerto percebem que o amor do meu marido transmite uma energia muito diferente.
Quando chegámos ao Hospital Particular da Boa Nova, uma maravilhosa banheira cheia de água esperava por mim – foi sensacional sentir o abraço da água quentinha, doce carícia, ninho, proteção, privacidade… mas a minha mente mantinha-se alerta, ainda preocupada com a saúde da minha mãe… estava como fora do meu corpo… por vezes afastada do meu querido e doce Gonçalo, prestes a nascer. Às 16h comecei a sentir que o Gonçalo queria nascer e comecei a empurrá-lo para a vida… empurrei-o… não deixei que ele me ajudasse… Não sei se foi pelo fantasma do final violento que tive do parto da Eduarda, se pela ansiedade face à dúvida pela saúde da minha mãe, mas assim foi. E como me fez falta nessa altura o meu marido dentro de água – só me apercebi disso depois! Apesar de me sentir alguns minutos assim, fora de mim, com o apoio da fabulosa equipa e do meu marido, regressei, e em pouco tempo o Gonçalinho nascia. O meu querido “marinheiro de água doce”, emergindo da água para o meu santuário, o meu peito, com os olhinhos bem abertos olhando para mim, como que a dizer: “Olá mamã, aqui estou eu… sou o Gonçalo!”.
Muito sereno, com muita saúde e muita paz, procurou a mama e começou a mamar, com uma vitalidade fabulosa. A placenta saiu dentro de água e só depois se clampou o cordão umbilical. Desta vez o meu marido pode fazer o que tanto desejava, ser ele a inaugurar o nascimento do Gonçalo, cortando o cortão umbilical – como foi emocionante ver o seu entusiasmo, e o seu coração cheio de amor e alegria, nesse dia. Foi ele também que vestiu a primeira roupa (já muito tempo depois, quando o Gonçalo terminou a sua primeira refeição), tal como tinha já feito com a Eduarda, mas desta vez com a confiança de um pai já bem seguro do seu papel.
Pouco depois chegou a mana Eduarda, e a forma como ela recebeu o maninho recém-nascido foi imensamente comovente… tanto carinho, tanto cuidado, tanta emoção…
No dia seguinte fomos para casa, nem 24h depois do nascimento estávamos de regresso ao nosso lar.

Uns dias depois alguém me perguntou:

“Quem fez o parto?” – E eu tive o orgulho de dizer:
“Fui EU! Fui eu que conduzi o meu filho para a vida com a minha energia e a minha força, potenciadas pela dedicação, o trabalho, a disponibilidade e o profissionalismo de um equipa de profissionais e amigas excepcional! Assim como o empenho e o amor do meu querido marido! Que acima de tudo me respeitaram, apoiaram e acreditaram em todos os momentos de que eu seria capaz. Foi intenso, trabalhoso, desafiante… recompensador e extremamente empoderante. Começa agora uma vida a quatro e tenho a certeza de que seremos muito felizes!”

~ Isabel Ferreira


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.