Entrevista com Radmila Jovanovic Entrevista / Semana Pelo Parto Respeitado

Radmila Jovanovic nasceu na antiga Jugoslávia. Ainda era criança quando se mudou para a Alemanha, com os seus pais.

Atualmente vive e exerce a sua profissão em Portugal. É médica especialista em ginecologia e obstetrícia. É apologista do desenvolvimento do parto natural e humanizado e da introdução do parto na água no SNS.

Preconiza o empoderamento e a consciencialização da Mulher, enquanto Ser, enquanto o Todo. Usa uma visão holística com as mulheres, no seu trabalho. Para ela, só assim faz sentido!

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 A Drª Radmila é médica obstetra e estará presente no “1.º Encontro sobre Escolhas no Trabalho de Parto e Parto ~ O Parto na Água”, a acontecer em Albufeira, no próximo dia 28 de Maio.
Este evento está a ser organizado pelas Mães d’Água.  Como conheceu o nosso trabalho?

Eu fui convidada. A minha secretária toma conta desta gestão de “ir aos sites” e “ver o que existe”, neste momento, à nossa volta. Eu reparei nesta informação, e como eu tenho a ideia – não só ideia mas a certeza absoluta! – que a mudança do paradigma ao nível do parto em Portugal vai acontecer pelas mulheres, e não por uma médica estrangeira (tipo eu!), ou pelas parteiras – então fiquei atenta e pensei
“Isto é bom: isto é o que é preciso para a evolução poder acontecer!”
Foi um encontro: houve um convite do vosso lado e, previamente, eu tinha conhecimento da vossa existência. E foi gostoso para mim! Gostei desde o início da ideia, porque acho que é o caminho. Acho que o caminho vai ser pela Mulher, em Portugal!

A sua participação será com o tema: “O parto na água em Portugal (SNS / privado / domiciliar) – estado da Arte”
Pela sua experiência, como é visto o parto na água em Portugal? Nota alteração desde que fez o primeiro parto na água até ao mais recente?

Sim… houve um retroceder, não é?! O primeiro parto na água aconteceu fora do hospital e aconteceu nas traseiras da minha Clínica. Isto foi em finais de 2005 e inícios de 2006 e foi uma situação muito espontânea! Foi uma médica, inclusive, que quis ter o parto na água. Eu estava naquela altura em contacto com a Barbara Harper e com outros médicos na Itália e na Alemanha, para coordenar um bocadinho esta situação.
O primeiro parto na água em Portugal aconteceu por acaso.
Eu liguei para a Reboleira – o hospital da Reboleira – falei com “uma senhora” e disse que “gostaria de utilizar a água num parto”.
Para mim isto significava ter o bebé na água. Pusemos a banheira a funcionar no quarto e a senhora dentro de água e, quando o bebé estava quase a nascer, a pediatra entrou e ficou toda…
“Aaaaaaah, mas o que é que vocês estão a fazer aqui?”
Até que a mãe disse,
“Mandem esta senhora embora do quarto!” (risos)
Foi uma coisa um pouco confusa mas como correu lindamente abriu a porta para podermos continuar a fazer. Naquela altura, na Reboleira, houve esta abertura e houve esta possibilidade de continuar, e foi gostoso para os pediatras. (A pediatra da altura, a que coordenava esta área, é a atual pediatra coordenadora de neonatologia no Hospital de Cascais).
Correu tudo lindamente! Eu saí da Reboleira, porque fui convidada para o Hospital Particular para criar uma secção maior, se não eu não saía dali.

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Imagem de Melissa Jean (melissajean.com.au)

Isto trouxe, depois… aquilo que trouxe – o Hospital faliu antes de nós podermos realizar todo o plano. Mas houve um desenvolvimento bom. Naquela altura até houve apoio do Hospital de Setúbal para começar o parto na água e houve um bom desenvolvimento.
Até ao momento em que, “a medicina”, fechou a possibilidade de continuar.
E porque é que isto aconteceu?
Eu acho que é sempre a mesma razão!
Nós estamos a tentar implementar uma coisa de “cima para baixo”, com os médicos (digamos assim), e eu acho que vai haver sempre muita resistência por parte dos médicos. Porque na visão médica uma parteira começa a se meter em coisas que são “diferentes”, e começa a “retirar autoridade da medicina”.
Porque no parto na água o parto é do parteiro, e não do médico.
Só quando muitas mulheres quiserem mais e maior modificação deste sistema, entrando com planos de parto, modificando a atitude, pedindo mesmo outras maneiras, dizendo “não” a várias atitudes que os médicos fazem hoje em dia… Só aí vai haver mudança.

Por exemplo, tive há pouco tempo um parto de uma senhora, na água, em que a senhora foi ao hospital e foi quase obrigada a aceitar um “toque”. A senhora recusou.
A médica ficou zangada. A paciente perguntou-lhe o porquê da médica querer fazer isso e ela respondeu-lhe: “isto é necessário, importante”. A paciente disse que tal não era necessário nem importante e que o seu corpo vai agir quando tiver que agir!
Ela entrou em trabalho de parto normalmente e conseguiu resistir a esta situação hospitalar. Como há outras pessoas que recebem no hospital a informação de que “o bebé não cresce bem” e “vamos induzir”. Estas informações não são suficientes para este tipo de procedimento e até trazem um certo perigo. Ao induzir-se pode criar-se uma situação mais perigosa e que pode trazer necessidade de intervenção – inclusive, até cesariana!

Então onde estamos agora?
Fizemos um percurso do “lado de fora” de médicos e parteiros.
Este percurso foi combatido por médicos e parteiras mais importantes e com mais força na área.
Agora o caminho já está preparado!
É um caminho que funciona!
Toda a gente sabe que isto funciona!
Agora é necessário uma “massa de mulheres” que vá nesta direcção – e isto vai abrir a porta!
E mesmo a ignorância da medicina – que ainda existe – quando diz que isto “é perigoso”, é só ignorância.
E a ignorância não tem pés para andar!

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Imagem de Paulina Splechta (www.paulinasplechta.com)

 

E isso não será medo do desconhecido? Porque os médicos estão habituados a executar os procedimentos que aprenderam na faculdade. Para eles aquilo é o “normal” e é algo que eles conseguem controlar.

Não sei se é só medo do desconhecido… É também, mas acho que não é só.

Existe uma história. E nós temos memórias da nossa história. E na memória da nossa história existe muita morte infantil. Muita perda de crianças, muita mulher que ficou no caminho durante o parto, muitas vidas perdidas… existe uma história que se gravou nas nossas memórias. Existe uma luta contra esta situação, o que significa um querer melhorar. E a medicina foi uma melhoria! E dentro do espaço de querer melhorar existe o pico de reconhecer que isto é uma melhoria.
Além de “melhorar”, começa a retirar-se a possibilidade da natureza funcionar naturalmente.
Começamos até a perder a capacidade de confiar que, naturalmente, as coisas correm direccionadas para a Vida!
Começamos a achar que temos que controlar tudo. E aí se perde um bocadinho o momento. E a partir desta situação começa a haver uma luta contra este movimento.

Porquê?
É normal, é automático que depois de uma situação difícil haja uma melhoria da situação. A melhoria da situação faz com que se percam as bases boas da situação prévia e vai haver um terceiro movimento que vai equilibrar os dois.

Nós estamos no terceiro movimento!

No terceiro movimento é necessário perceber que 90% dos partos vão andando de uma maneira em que não é preciso intervenção e onde pode ficar perfeitamente no seguimento das parteiras e não vai ser preciso intervenção médica. E vai ter que haver na mesma uma boa comunicação entre as parteiras e os médicos, para não piorarmos os resultados dos ganhos que aconteceram durante esta segunda fase que eu falei. Porque há um perigo de se “baldar” um bocadinho a informação que nós recebemos, e de se entrar numa ligeireza, quando existem situações de risco.

Temos que estar muito firmes também, para evitar estas situações de risco. Porque, claro que a água pode ajudar em várias situações de risco, mas não fora do hospital. É necessário trabalhar com boas regras de definição e, quando as coisas não correm como deve ser, também ter suficientemente coragem de dizer ”é perigoso continuar assim”.

Há muitas mães que optam por um parto em casa. Não é a favor, então?

Existem situações, que não são poucas, que começam em casa e não acabam em casa. E isso cria muito atraso. Eu acredito profundamente que o parto não é uma doença e que a gravidez não é uma doença e que o parto é um acontecimento naturalíssimo, direcionado para a Vida!
Isto acredito profundamente!
Acredito profundamente que a mulher que mais se conecta com ela própria, vai saber, antes de acontecer qualquer coisa, para onde é que ela tem que ir.
Acredito que estamos no caminho para aprender a reconectarmos com isto.
Estamos no caminho! E é importante reconhecermos que, muitas de nós ainda não chegaram lá. E quando existe esta dúvida – não é para convencer ninguém – é necessário apoiar a pessoa a chegar até ao ponto que consegue e suportar e a fazer o caminho que precisa de fazer. Sem usar o seu ego,
“Eu quero agora ter todos os partos naturais”.
Não, não. Não é esta a questão!
A questão é muito mais apoiar o processo de negar da pessoa, que não ultrapasse os seus limites e não seja depois um parto natural traumatizante.

Eu vivi um parto dos mais bonitos que vi na minha vida, foi um parto de que a pessoa precisou de dois anos, pelo menos, para se recompor. E ainda hoje, quando passa pela Clínica – ela ainda tem contacto comigo e nós vamos trabalhando isso – ela sente a adrenalina subir.

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Imagem de Belle Verdiglione (www.belleverdiglionephotography.com.au)

Foi um parto prolongado, que acabou por ser na água – lindo, bonito, uma coisa impressionante, em “passos lentos” – mas como a mamã estava muito cansada, já não conseguiu usufruir desse momento!

Temos que saber que lidamos com um sistema muito complexo e íntegro – o sistema da Mulher que está à nossa frente – e temos que ser muito boas observadoras e observar com o nosso coração, para se perceber o momento certo das coisas.

No Hospital de Cascais os pais podem entrar e as pessoas podem passear; no Hospital de Loures, a mesma coisa; no Hospital Garcia de Orta também. Significa que em todos os hospitais, agora, aparecem aberturas para uma “atualização do parto”.
Acho que neste momento é necessário continuar a promover esta opção do parto na água e a falar sobre isso. Para um dia voltarmos a ter esta opção outra vez no meio hospitalar.

E isto é o meu sonho: uma casa de partos no hospital.
Isto quer dizer o quê? É uma secção direcionada pela parteira, onde haja, no mesmo piso ou no piso superior, a possibilidade de ir a uma sala de partos convencional, se for necessário – também humanizada, mas convencional.
Isto é o meu sonho e sempre foi e vai sempre ficar! Nunca vai ser parto em casa e nunca vai ser parto fora do hospital. Mas trazer a casa para o hospital. Porque em todo o parto há toda esta “incógnita”, o que nós não sabemos , e está gravada no nosso inconsciente, no preciso momento do trabalho de parto e parto, pode vir ao de cima e pode surpreender. Porque existe isto, definitivamente – estamos 95% insconcientes e 5% inconscientes. A consciência serve só para transformação, nada mais!

 

Dá formação/ certificação para parto na água a profissionais de saúde, em Portugal?

O conceito do Primeiro encontro de parto na água em Portugal foi feito, as informações foram dadas pelas experiências dos partos que tivemos no Hospital Particular e foi em colaboração com o Hospital de Setúbal, naquela altura, e com o Vítor Varela. No fundo fomos nós os dois a criar esse evento. E não acredito que haja um evento de nível mais elevado do que aquilo que fizemos lá. Foram três dias muito intensos, com muita informação, com muito material e vídeo de trabalho de parto de várias mulheres, onde houve a possibilidade de sentir a atmosfera e de ser conectado passo por passo.
Outra formação foi feita na Reboleira, com todo o pessoal que lá trabalha e obviamente existe uma abertura enorme para partilhar a informação com rápida autossuficiência, digamos assim. Eu também vou ao Garcia de Orta – já falei com eles sobre isso – e fui quase convidada para coordenar a sala de partos do Garcia de Orta.
Só que, quando eu disse que só lá vou se houver parto natural/ parto na água lá, eles recuaram um bocadinho.
O médico não vai gostar muito do parto na água – porque não vai ser necessário num parto na água.
Muito simples!
E neste momento toda a opção do sistema privado vive com partos feitos por médicos. E isto é um grande dilema!

Mas por exemplo, o colega do Porto, Diogo Aires, fez uma declaração pública do que existe hoje em dia, da programação de cesarianas e sobre o facto da cesariana não ser benéfica para a criança.
Esta também foi uma declaração muito importante para a mudança!

 

Porquê o parto na água?

Água é o elemento feminino; a água transporta a informação; a água é o aconchegador, é o íntimo; a água promove uma leveza, uma saída de gravitação; promove uma sensação de toque perpétuo.
A oxitocina leva a isso; cada toque liberta oxitocina.

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Imagem de Angela Gallo (www.angelagallo.com)

A água dá também esta intimidade de não haver muito toque, porque na água não se toca tão facilmente, dá a possibilidade de expansão do corpo. Significa que não é só o nosso corpo, mas cada vaso que se expande. Significa que a alimentação da placenta é muito boa naquela altura. Então, todos os efeitos (que são efeitos), que possam ser causados por uma certa insuficiência da placenta vão ser diminuídos ali. Esta é só uma parte!
A água pode dar-me diagnosticamente a percepção de se o trabalho de parto está ativo ou não. Isto é uma coisa.
A outra é que no início do trabalho de parto pode aliviar a dor. Só que não se deve ultrapassar demasiado o tempo na água.
Perto do momento da expulsão, a dor não diminui na água. Existem estudos comprovados, em que as mulheres tiveram que identificar a dor numa escala de 0 até 10, num doutoramento de uma colega minha na Alemanha, e foi claramente dito que a dor não diminui nessa fase. O que é diferente na água é que o momento em que o bebé sai, pode ser “contido” um bocadinho mais de tempo, e a saída da criança é muito mais suave.
A criança sai do espaço da água e entra num novo espaço de água. E tem tempo dentro da água de recuperar o seu sistema e, só depois, sai dela e começa a entrar nesta transformação grande que acontece com a primeira respiração. Que não é tão fácil para a criança, porque o coração começa a ser colocado diferentemente: já não é em paralelo, faz direita – pulmão – esquerda.
Este tempo que temos em que o bebé sai da barriga, entra para a água e sai outra vez para a mão da mãe, prolonga-se e traz uma maior consciência de vinculação entre a criança e a mãe.
O momento mais importante da nossa auto-estima! É o momento em que a mãe me vê, adora o que vê e nem coloca questões de perfeito ou não perfeito… não interessa! Ele é perfeito por si próprio! Isto significa que a iniciação da vida da criança, naquele momento, é o início com aceitação completa, que a vida está aqui à espera para mim.

É uma coisa muito, muito bonita, que dificilmente se vê fora da água, mas pode acontecer também fora da água.
É importante perceber que, fora da água, é mais fácil para o médico pegar e na água, menos se pega no bebé.
A intimidade que dá a água e a integridade que cria à volta da água!

A água facilita/ promove a união do casal?

Nem sempre o homem entra para a banheira. Quando ele entra, eles têm a percepção desta união: pai, mãe e criança.
Obviamente é uma sensação de uma conexão bem profunda. Isto vê-se, inclusive. Mas a ligação não acontece necessariamente por causa da água. Eu já vi pais que entram na banheira e estão desconectados. E já vi pais fora da água que estavam extremamente conectados. Então, eu não simplificava isto desta maneira.

A capacidade de presença do pai no parto é a única coisa que é importante e depende do pai. O trabalho do pai é… – como já vimos naquele encontro que tivemos aqui em Cascais. Falava-se muito disso. Um parteiro que falava sobre o trabalho do homem no parto. É mesmo isso! – O pai não precisa de fazer nada! Ele só precisa de “estar lá”, com toda a alma e com o seu coração presente. Mais nada!

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Imagem de Belle Verdiglione (www.belleverdiglionephotography.com.au)

Esta presença não é uma capacidade que se aprende só no parto, esta presença é uma capacidade de desenvolvimento da pessoa. Significa “onde é que se encontra esta pessoa”. Eu já “vivi” pais que estavam lá dentro e que não estavam, e já “vivi” pais que não estavam dentro e que estavam muito presentes e a Mulher os sentia muito, muito perto.

Nos episódios da “Alma Mater”, na rúbrica “Ser Mulher por Inteiro”, a Drª. Radmila aborda a visão holística da Mulher. O que isso significa para si?

Você viu mais do que eu! (risos)
A Mulher é holística!
O corpo da Mulher é uma réplica do Universo! É uma criadora de Universos. Há tanta informação dentro do nosso corpo, que se poderia explicar o funcionamento do Mundo lendo o corpo da Mulher. Isto é uma riqueza… eu a cada dia descubro uma nova informação sobre isso. Mas é uma riqueza que nos pode dar muita informação sobre como é que a vida está pensada. Sobre como é que o relacionamento homem – mulher está pensado. Onde é que isso nos leva? Qual é o interesse disto, não? Como é que a transformação acontece?

Todas estas coisas estão nitidamente, explicitamente dadas como informação no corpo feminino. Esta leitura é uma sabedoria que existe cá dentro, e é muito bonita. Se as mulheres conseguissem conectar-se com essa sabedoria dentro delas, o campo energético que nós criaríamos ia ser tão coerente, que o Mundo mudava por si próprio!

Eu não fico nada surpreendida com o que Dalai Lama disse:
“A mudança neste Mundo vai acontecer pela Mulher Ocidental.”
Eu não estou nada surpreendida com isto!

As consciências que despertam os ciclos de Mulheres, que acontecem e levam a Mulher a procurar outros caminhos, a procurar uma outra atitude, a questionar muito as pílulas… Você sabe que, há uns anos atrás, a substituição hormonal era a regra. De repente, ninguém mais substitui hormonas na menopausa.

Todos estes acontecimentos são grandes passos em direcção a uma consciência feminina diferente, e não esqueça uma coisa: esta consciência feminina é a consciência que a Criadora nos dá. E o campo que é criado é por onde a energia masculina linear se pode orientar, e pode ganhar uma nova atitude, uma nova expressão.
Eu estou totalmente virada para a sabedoria do corpo feminino. (risos)
Totalmente virada e espantada! O que mais vou aprender sobre isso? O que é que mais me vai dizer o corpo sobre isso?
É muito bonito! É a essência do meu trabalho.
Eu sou médica ginecologista e sou muito grata pelo que aprendi sobre a ginecologia obstetrícia, e sou também muito grata aquele momento em que estas informações se conseguiram conectar com informações superiores, que eu não sei de onde é que vêm, mas que eu sinto no corpo que são verdade. E que são informações que acho que todos nós temos capacidade de alcançar.
E que mais posso eu fazer nessa direcção, para promover esta informação? Estou cá para isso!

 

O parto é um regresso da Mulher ao seu interior; às suas ancestrais? Como acontece essa conexão?

Eu acho que é muito simples!

Primeiro, eu acho que o parto em si nunca foi pensado ser uma coisa dolorosa. A dor do parto que nós vivemos é o limpar da nossa dor vivida há milhões de anos. E cada vez que uma Mulher passa por estas dores, alguma coisa mais se limpou. E eu acho que a hora do parto, com as hormonas todas que são “intrometidas”, tem a ver com grande prazer e não com dor. Só que dor e prazer estão sempre muito perto! Aguentar grande prazer é muito difícil para nós, porque vai nos automaticamente conectar com grande dor. Durante o trabalho de parto, pelo menos mais para o final, acontece uma desconexão com o pensamento e uma conexão com a informação Universal. E este é o tal momento que se conecta com toda a nossa história e com tudo o que está por detrás, e em que se ajusta alguma coisa. Parece que, de repente, fica uma outra informação para trás, e nós ganhamos uma nova informação para a frente. Não só com esta criança, mas também conosco como Mulheres.
A comunicação não acontece porque eu sei que comuniquei. Não tem nada ver!
Mas pode ser apoiada no fazer da ritualização do parto, por exemplo. Pode ser apoiada por toques xamânicos; pode ser apoiada pelos sons; por mantras; pode ser apoiada por luz, incensos… muitas opções. Até se pode combinar antes, com a grávida, que tipo de conexão ela quer. Mas com antecipação.
O que é que isto quer dizer? Não é com expectativa.
A expectativa traz stress. Esqueça. Mas a antecipação traz felicidade, porque eu já me imagino lá, e sinto aquilo tudo a acontecer. Perfeito!
Com esta antecipação, você chama esta energia de vir, e esta antecipação também é a técnica necessária para nós aprendermos sempre mais, antes de irmos ao hospital. Sempre mais. Antecipar: ver os médicos bem-dispostos, a parteira a perceber o que é que eu preciso… E ver toda esta imagem, criar esta vibração toda à volta, antes de entrar no hospital. Isto traz a mudança toda! Isto também é sabedoria feminina! As coisas não precisam ser feitas – as coisas se criam nesta zona aqui, ativando o nosso coração.

O transportador do amor é a mãe, e ela transporta amor a cada criança. A cada criança que nasce, uma mãe transportou amor. A semente está lá, o trabalho da pessoa vai ser destapar pouco a pouco até chegar a esta informação de base.
No fim, o objetivo da nossa vida é chegar a esta base: o amor!

 

O parto pode ser uma forma de honrarmos as nossas antepassadas?

Sim, sim, sim!
O parto em si é conectarmo-nos com todos os pontos que a gente fisiologicamente vê. A vagina está “a ser massajada” no parto. Na nossa vagina, nós temos a informação toda colocada sobre a história das Mulheres que estão para trás, das nossas ancestrais todas!

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Imagem de Chanel Baran (chanelbaranphoto.com)

Desconforto, dor, maltrato, alívio… tudo isto vai estar conectado lá. E a dor é quem nos leva a esta conexão direta, porque a dor fala sobre estas dores todas. Num certo momento, as endorfinas entram e a gente começa a soltar o corpo físico – a dor, qualquer coisa – e a conectar-se com essa essência.
O parto promove, definitivamente, uma grande modificação na Mulher, na família, na grande família, na maior família e no Mundo! Cada parto. Cada parto faz isso. Eu não consigo medir, mas existe a física quântica que podia, inclusive, medir isso. Isso deve dar raios muito, muito compridos. Isto chega a sítios muito longe! Por isso manter a energia do parto na água vale a pena! A única razão pelo que eu faço isso, é porque para mim existe esta informação intrínseca dentro de mim. Eu sei que não posso parar agora, porque ainda não se chegou ao ponto onde se deve chegar. Onde é para chegar!

 

O que sente sempre que acompanha e auxilia uma mulher a dar à luz?

Ui… gratidão! Gratidão enorme! É, é gratidão!

 

Houve algum parto que a tenha marcado especialmente? Por que motivo?

Muitos, mas existe um que nunca vou esquecer, porque vi coisas que “não são daqui”! Uma mulher que engravida “acidentalmente” mas, nitidamente, esta gravidez vai ficar. O homem anda o tempo todo irritado com isso – não quer. Ela deixa-se acompanhar por outras mulheres. De facto, antes do parto acontecer, o pai volta a conectar-se com ela.
O parto dela acontece nas traseiras desta clínica e, no final do parto, ela fica sozinha no meio da banheira, sozinha.
Não quer ninguém lá dentro e eu vejo uma coisa impressionante (nunca vou esquecer isto!): uma luz, como se fosse um foco de luz por cima dela, a “aconselhar” a não fazer nada, só a olhar.
A mãe faz acontecer o parto sem qualquer instrução de ninguém e faz todo o percurso de saída do bebé sem ninguém lhe dar uma informação.
Tudo quieto à volta e eu – juro-lhe – vi uma luz!
Uma coisa impressionante.
Foi a única vez em que eu vi e suponho que seja uma coisa “extraterrestre”. Esta situação marcou-me e, ainda hoje, lágrimas vêm ter comigo, por causa da grandeza daquele momento. E quanto não é necessário, se a senhora se conecta. Não é preciso dizer-lhe nada, nem precisa aprender sobre isso.

 

A Dr.ª Radmila é mãe? Teve os seus filhos na água?

Eu tenho três filhos. Eu sou uma pessoa que teve, aos 22 anos, cancro do colo do útero e fui operada, e foi-me dito para ter o parto o mais breve possível, e eu não gostei da ideia!
Então, segui para a minha vida e nem quis pensar muito mais sobre isso.
Percebi a razão desta “modificação” e comecei a Viver a minha vida, e aos 30 anos eu engravidei pela primeira vez.

O meu primeiro parto foi viver uma dor que eu nunca vou esquecer na vida. É uma dor como na época medieval, quando separam as partes do corpo das pessoas em quatro. Eu sentia isso nas minhas pernas. E hoje sei que isto tem a ver com cicatrização do colo do útero. A cicatriz do colo estava tão dura, que não deu para ceder. Então tudo abria, abria, mas a cicatriz não deu para abrir.
Para mim foi também alguma conexão com a minha história, com as minhas vidas passadas ou da minha família onde, quem sabe, alguma mulher sofreu alguma situação horrível. Quando o colo abriu, o parto aconteceu com toda a consciência. A parteira quis pegar na tesoura e eu:
“Tire a tesoura. (risos) Eu quero tudo natural!” Então foi um parto sem cortes, sem nada, de cócoras.
E eu fiz um parto revolucionário, naquela altura: um parto ambulatório. Eu fiz o parto no hospital e fui-me embora duas horas depois, com a minha criança, para casa! E a parteira vinha a minha casa para me apoiar.

Naquela altura, na Alemanha, todos os colegas ficaram muito zangados, mas cada um sabe da sua pessoa! Como não gostei da atitude daquele hospital – foi onde eu trabalhei e eu conhecia as pessoas – para o segundo parto, também em Berlim, na Alemanha, eu escolhi um hospital onde ninguém me conhecia.
Este parto foi um parto de brincadeira, na bola, a dançar… foi um parto lindo!
Tinha 6cms (de dilatação) quando entrei no hospital. Entretanto fui buscar o meu marido ao aeroporto com o filho. Foi lindo! Cheguei lá e não demorou muito tempo para a Débora nascer e, duas horas depois, fui para casa outra vez, com a criança.

O terceiro foi outra situação!
O terceiro foi uma situação de “incompetência do colo”. O colo abriu muito cedo.
O meu filho mais pequeno quis sair com 20 semanas e, naquela altura, fez-se uma coisa que não se faz com 20 semanas… empurrou-se a bolsa para dentro e fechou-se, e “segurou”, até às 32 semanas. Depois nasceu com 32 semanas e nasceu muito bem! A amamentar logo! Eu saí do hospital no segundo dia. Quando quiseram pôr o meu bebé debaixo da lâmpada, eu peguei no bebé e fui-me embora. E fui à praia, lembro-me bem! Fui com ele à praia, assim à sombra, na praia, a apanhar sol. Ele era muito pequenino, tinha menos de 2kgs, mas foi bom!

Eu tenho o luxo de ser médica, porque se fossem vocês a fazer isso, talvez vos tirassem as crianças. Na altura eu disse:
“Desculpem lá mas chamem a polícia, se quiserem”.
Eles não chamaram. Os meus bebés nasceram deste género: dois foram partos normais (eu não tenho corte nenhum), e o terceiro foi uma “gravidez apoiada”, para conseguir chegar até às 32 semanas. Depois teve que se “promover” o parto, e o parto aconteceu. Mas nasceu de parto normal. E mesmo um “ratinho” pequenino foi rapidamente à praia! (risos) Diziam: “coitadinho!” e eu: “coitadinha, eu, não é coitadinho!”

Naquela altura, já no meu primeiro trabalho como médica ginecologista obstetra, entrei em contacto com informações de Lamaze. Fui ouvir o Lamaze falar. Ali houve as primeiras informações sobre a humanização do parto, a importância do parto e o quanto ele é importante para a vida da família.
Eu desde sempre lutei pelo parto na Água. Em Portugal, na Cruz Vermelha, ninguém podia tocar nas “minhas grávidas”.
Evitava as epidurais. E quando entrei em contacto com o parto na água, ali caíram as minhas lágrimas: chorava porque percebia que não sabia quão errado eu estava e fazia. Eu tinha a sensação de que já fazia muito para os partos serem naturais, mas percebi ali que não chega! Tem que ser mais!

Hoje em dia eu passo esse ensinamento.
Tem que ser ainda menos nós – mais as pessoas.
Temos que ultrapassar os nossos medos, ganhar muita mais confiança pela vida, para podermos ser aquelas pessoas ao pé da grávida que, do início ao fim, têm plena consciência, plena!
O parto é um acontecimento natural e que promove Vida!

 

Três palavras que resumam, para si, ser mãe.
Confiança, criação, compaixão!

 

Três palavras que resumam, para si, ser Mulher.
Matrix, conexão e amor!

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Imagem de Camilla Albano (www.facebook.com/CamillaAlbanoFotografia)

 

Para terminarmos, peço-lhe mais três palavras… mas que resumam, desta vez…
o que é para si o parto na água!
(risos) Entrega, reconexão, vincularão! Numa frase. “Um novo Mundo”.

Quando nasce uma criança, ela nasce justo naquele momento quando o Mundo ficava desequilibrado sem ela. Parece que existe uma necessidade de nascimento desta energia protetora, universal individual. Esta criança é um professor individual, que não fala, não sabe comer sozinho, não sabe andar, nem nada… mas ensina, com profundidade, em plena conexão direta com o coração.
Coisa impressionante!
Se acharmos que nós ensinamos qualquer coisa às crianças – estamos muito enganados! E se lhes ensinamos coisas, nós só travamos os processos que acontecem ali mesmo. Eles trazem um espelho, um espelho com compaixão e amor tão intenso para nós, que nos deixa ver as coisas que mais doem dentro de nós.
Isto foi uma prenda enorme.
E o que é que significa o parto: é uma reconexão com a mulher em si, com a mãe e uma vinculação nova.
Entrega, reconexão, vinculação, sim!

 

 

Muito grata à Drª. Radmila da Clínica da Mulher pelo tempo disponibilizado mas, principalmente, pela entrega e pela generosidade da partilha e pelo amor com que fala sobre o parto e sobre a Mulher! Sem dúvida, uma inspiração para todas nós!

(Imagem de capa de Chanel Baran)


Sou a Liliana, mas todos me conhecem por Lili. Sou dança, sou Sol, sou música... sou riso, sou lágrimas, estações... sou o dia, sou a noite... sou um eclipse de sentimentos e sensações. Filha da Terra, Mãe d'Água de Coração! ☼