Querida filha Grito na Lua Negra

Querida filha

Senti o teu cheiro pela primeira vez e ter-te nos meus braços foi, sem dúvida, algo mágico. Fez-me acreditar nas bênçãos da maternidade. Fez-me ter vontade de voltar a parir. Os primeiros tempos (dias) foram muito tranquilos, sentia-me a mãe mais calma à face da Terra. Estava preparada para ti!

Sentia-me cansada mas feliz e grata por poder partilhar algo tão valioso com o teu pai, a pessoa que amo. Dezasseis meses depois dou comigo a escrever uma crónica sobre o outro “lado” da maternidade… (quase) à beira de um ataque de nervos!!!

Querida filha

Quero ser o teu exemplo, ser motivo de orgulho para ti, sorrir sempre que olhas para mim. Mas não consigo! Chego a casa cansada do dia de trabalho e nem consigo pousar a carteira ou tirar o casaco… vens logo a correr para o meu colo. Sentes a minha falta. Não te interessa saber se a mãe está exausta, aflita para fazer xixi queres, apenas, a tua necessidade de alimento, conforto, carinho, suprida.

Se tento ter uns minutos para mim, fazer algo que gosto ou preciso… não consigo! Exiges a minha atenção, queres colo ou brincadeira:

“É bola”

E ofereces-ma para brincar contigo.

E eu páro o que estou a fazer para estar presente. Se não o faço desatas a chorar, atiras-te para o chão como se eu te estivesse a abandonar. E, de facto, eu sinto-me a abandonar-te. E pior, sinto que estou a abandonar a pessoa que fui um dia. Ando cansada, esquecida, mal-humorada. A luz que existe em mim está a apagar-se. Todos os dias tenho momentos em que me sinto perdida.

Esqueço-me de respirar e a paciência quase já não me conhece. Espero que o amor que sinto por ti seja mais forte que eu. Sinto um crescente aperto no meu coração. Penso, cada vez mais, se serei capaz de ser mãe. Tento lembrar-me que tu é que me escolheste mas, por vezes, esqueço-me. Penso em desistir. Como posso desistir de ser mãe?

Não me deixas dormir, chorar, descansar, estudar,… A minha identidade está a extinguir-se e, neste momento, estou em conflito comigo para que não aconteça. Mas não sei como o fazer.

Imagino-me imensas vezes em cima de uma corda bamba de onde posso cair facilmente. E, se isso acontecer, vou parar a um poço sem fundo. Tenho de me manter saudável para ti mas estou a perder-me…

A tua mãe


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.